Mais um dia a ver o tempo passar
Quarta-feira, 15 de Outubro de 1975
Hoje o dia começou cinzento, com o céu pesado, como se soubesse que nada de extraordinário nos esperava. Saí de casa um pouco tarde, encontrando o Manel e o Benjamim já na rua. Caminhamos sem pressa, conversando sobre nada e tudo ao mesmo tempo. A presença deles era suficiente para transformar um dia comum em algo suportável, mesmo que o tempo parecesse arrastar-se.
Fomos até Porto. O Liceu Alexandre Herculano era o nosso destino, para inquirirmos quando começariam as aulas. Sentamo-nos num banco junto ao liceu, observando os carros passarem e alguns colegas a atravessar a estrada apressados. Entre risos discretos e comentários que só nós entendíamos, descobri pequenos momentos de prazer: o som de uma música que saía de um rádio distante, a brisa fresca a embaraçar os cabelos, e a sensação de que, mesmo sem grandes aventuras, estávamos juntos. Voltamos, mais tarde, sem pressa à nossa terra.
O almoço foi apressado e silencioso, mas não me importei; a monotonia tinha o seu próprio encanto. À tarde, voltamos a vaguear pelo Alto do Depósito, como quem explora territórios familiares pela primeira vez, e senti a estranha tranquilidade de dias sem pressa, sem a pressão das emoções que se encontravam em pausa no meu coração. Pouco se passou, mas o simples acto de estar ali, na companhia deles, tornou o dia suportável.
Quando cheguei a casa, uma leve sensação de contentamento pairava no ar, misturada com a inevitável reflexão sobre o que poderia ter sido diferente, ou melhor, mas que de facto não precisava de ser.
Assim terminou um dia sem história, mas ainda assim digno de memória.
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