Longe da vista, longe do coração (?)

Quinta-feira, 16 de Outubro de 1975

Hoje o dia começou como tantos outros, mas logo cedo senti algo diferente. A Dila passou em frente de minha casa. Um instante breve, quase invisível, mas suficiente para os nossos olhares se cruzarem. Sorriu-me, mas seguiu em frente sem uma palavra, sem um gesto que indicasse que queria parar ou trocar qualquer palavra comigo. Fiquei parado, perplexo, sentindo uma mistura de apreensão, frustração e um ligeiro desgosto zangado. Aquela distância repentina pesava mais do que qualquer silêncio habitual.

Durante a manhã, tentei concentrar-me nas pequenas coisas do dia, mas os pensamentos corriam sempre de volta para ela. O resto da tarde passei-o com o Manel e o Benjamim, como uma rotina previsível. Foi então que o Manel me pediu para irmos ter com umas raparigas que se tinham mostrado "interessadas" em nós nos dias anteriores. Noutra ocasião, teria recusado de imediato, mas hoje aceitei. A raiva silenciosa que carregava parecia precisar de sair.

Seguimos atrás delas, mas a tentativa não deu em nada. Não houve trocas de olhares ou qualquer interação que pudesse aliviar a tensão que sentia. Ainda assim, foi bom libertar a frustração, sentir-me livre de parte daquilo que me incomodava. No fim do dia, sozinho, pensei: longe da vista, longe do coração. Perguntei-me se algo estaria a mudar, se o distanciamento dela era apenas um momento passageiro ou um prenúncio de algo diferente.

O dia terminou com o peso das pequenas contrariedades e a constatação de que, mesmo nos dias mais comuns, os sentimentos podem ser turbulentos e imprevisíveis.


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