De volta à rotina

Sábado, 4 de Outubro de 1975

Hoje acordei com uma estranha sensação de alívio. Senti como se o bilhete, que antes parecia pesar-me nos ombros, deixou de ser prioridade. Talvez tenha percebido que algumas coisas precisam de esperar pelo momento certo, e que não adianta forçar o tempo. A vida, apesar das preocupações que insistem em pairar, continua a acontecer.

Passei a manhã a tratar de pequenos dramas familiares. A minha irmã casada saiu de casa, o meu pai discutiu com o meu cunhado, e eu tentei interceder de forma calma, sentindo-me, como sempre, um pouco impotente, mas desejando que tudo se resolvesse sem maiores estragos. O peso do bilhete, ainda presente no fundo da mente, parecia agora amortecido pelo ritmo habitual da vida.

À tarde, decidi sair com o Manel e o Benjamim. Fomos até ao monte, rimos, falamos sobre coisas triviais, mas cada momento parecia devolver-me uma sensação de normalidade que já há algum tempo não sentia. O tempo parecia mais leve, os problemas menores, e a ansiedade que me consumia em relação à Dila parecia recuar, apenas esperando pacientemente pelo momento em que o bilhete finalmente fosse entregue.

Mais tarde, fomos ao cinema. O filme cómico trouxe-me gargalhadas e a sensação de que, apesar de tudo, havia lugar para momentos de alegria. Sentei-me ali, entre amigos, e percebi que, mesmo com a preocupação com a Dila sempre a pairar no fundo, a vida continuava a acontecer, com pequenas felicidades que faziam valer a pena cada dia.

Ao regressar a casa, senti uma serenidade inesperada. O bilhete permanece, ainda intacto, mas agora é apenas uma possibilidade futura, não uma urgência. O dia terminou com um sentimento reconfortante: a vida não espera, e eu também não posso ficar parado. Amanhã será outro dia, com novos passos, novas conversas, e, talvez, o momento certo para o bilhete chegar às mãos da Dila.


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