Tempo de reflexão

Domingo, 5 de Outubro de 1975

O dia começou sereno, com o céu limpo e o ar fresco a despertar a Vila de S. Pedro da Cova adormecida. Encontrei-me com o Manel e o Benjamim para um passeio de bicicleta pela manhã. O vento no rosto e o ritmo constante das rodas sobre o chão trouxeram-me uma sensação de liberdade que há muito não sentia. Rimos, conversamos, e cada instante parecia escoar-se lentamente, preenchendo o corpo e a mente com uma paz simples e necessária.

À tarde, em casa casa com o espírito mais leve. Sentei-me perto da janela, deixando que a luz do sol iluminasse o quarto, e permiti-me mergulhar numa introspecção profunda. Pensei nos últimos dias, nas preocupações que se dissiparam, nos pequenos dramas familiares e nas alegrias simples que me devolveram o equilíbrio. Recordei os encontros, os passeios, as conversas com os amigos, e percebi como cada gesto, cada momento, me ajudou a retomar o fio da vida calma.

Escrevi no diário com cuidado, não para marcar acontecimentos extraordinários, mas para registar esta serenidade conquistada. É curioso como, depois de semanas marcadas por ansiedade e incerteza, o simples facto de permitir-se viver o presente pode devolver a clareza à mente e aquecer o coração.

Ao cair da noite, senti que este dia tinha sido um pequeno refúgio. Uma pausa onde o corpo descansou, a mente se acalmou e o coração encontrou espaço para respirar. Concluí que a vida, apesar de tudo, é feita destes intervalos de paz, e que, ao aprender a apreciá-los, encontramos força para enfrentar o que vier depois.


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