O bilhete ainda preso
Sexta‑feira, 3 de Outubro de 1975
O dia acordou silencioso, envolto na brisa morna do início de Outubro. As férias ainda não terminaram, e o mundo parece lento, quase parado, como se me desse tempo para medir cada batida do meu coração. O bilhete permanecia dobrado no meu bolso, pequeno, discreto, mas com o peso de um segredo que exigia coragem para ser revelado.
Passei a manhã a pensar em mil maneiras de o entregar sem que ninguém percebesse. Cada sombra, cada passo que ouvia, cada som distante parecia um obstáculo invisível. Senti a ansiedade crescer dentro de mim como um rio que ameaça transbordar, e com ela o medo de que, se o bilhete chegasse às mãos erradas ou se algo corresse mal, a Dila pudesse sofrer.
Encontrei-me com o Manel, como de costume, e partilhei com ele a minha indecisão. Ele riu-se, compreensivo, e disse que às vezes esperar pelo momento certo é mais valioso do que qualquer precipitação. Concordei com ele, mas cada palavra que saía da minha boca parecia mais uma desculpa para mim mesmo, para adiar o ato que tanto desejava realizar.
O resto do dia passou lentamente. Observei o mundo à minha volta, mas nada parecia real; tudo se confundia com o turbilhão dentro de mim. Planeei novos locais para entregar o bilhete, dobrei-o de maneiras diferentes, testei esconderijos, mas nada parecia suficientemente seguro. Cada estratégia era apenas mais uma promessa silenciosa a mim mesmo: “amanhã será o dia.”
Ao fechar os olhos ao final do dia, senti uma mistura de esperança e medo. O bilhete ainda não voou, mas dentro de mim, cada palavra continua viva, pulsando, lembrando-me de que a verdade que deixei ali precisa, mais cedo ou mais tarde, chegar até ela. O mundo está quieto, mas o coração não, e é nele que deposito toda a minha ansiedade e cuidado.
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