O bilhete que não se atreveu a voar

Quinta‑feira, 2 de Outubro de 1975

O dia amanheceu silencioso, mas o peso do bilhete dobrado no bolso parecia preencher o mundo inteiro. A ideia de que a mãe da Dila tivesse interceptado a carta anterior continuava a apertar-me o peito, como uma pedra que não quer ser removida.

Passei a manhã a vaguear, inventando desculpas para não me aproximar de nada que pudesse expor a minha intenção. Cada som, cada sombra, parecia revelar perigos invisíveis. O bilhete permanecia seguro, pequeno e discreto, mas dentro de mim vibrava como se contivesse toda a minha esperança e o meu receio ao mesmo tempo.

O Manel apareceu e percebeu de imediato a minha inquietação. Quando lhe contei que ainda não tinha entregue o bilhete, apenas murmurou palavras de incentivo: “Mais vale esperar pelo momento certo do que arriscar um erro maior.” Concordei com ele, mas não consegui afastar o sentimento de que o tempo passava e eu continuava impotente diante do destino da Dila.

À tarde, sentei-me à janela, olhando a rua deserta e pensando em estratégias: dobrar o bilhete de uma forma diferente, escolher um local seguro, entregar sem que ninguém perceba. Mas tudo parecia tão frágil, tão vulnerável. E, ao mesmo tempo, cada tentativa de planeamento fazia crescer a minha ansiedade.

O bilhete ainda não voou, mas dentro de mim, cada palavra pulsa com vida própria, pedindo passagem. A dúvida e a preocupação tornaram-se companheiras silenciosas, lembrando-me que, por mais que eu planeasse, o coração da Dila estava fora do meu alcance. Amanhã, talvez, encontrarei a coragem de finalmente libertar estas palavras.


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