Entre o medo e a esperança
Quarta‑feira, 1 de Outubro de 1975
Acordei com a cabeça pesada e o coração inquieto. O pensamento de que a mãe da Dila tinha lido a minha carta não me deixou descansar durante a noite. Cada vez que fechava os olhos via-a em apuros, imaginava perguntas duras, castigos, lágrimas escondidas. A culpa ficava ali, instalada como uma pedra no peito.
Durante o dia tentei agir como se tudo estivesse normal — mas dentro de mim nada estava no seu lugar. A única coisa que me mantinha preso ao mundo era a necessidade de saber se ela estava bem. Mas não havia maneira… nem sinal.
Foi então que, no meio da confusão do meu próprio pensamento, surgiu a ideia: escrever um novo bilhete. Não uma carta longa como a anterior, mas algo pequeno, rápido, quase imperceptível — e com uma estratégia diferente para não ser interceptado. Um bilhete tão discreto que nem o vento se apercebesse dele.
Sentei-me, ainda a tremer, e comecei a delinear as palavras. Algo simples, sem comprometer a Dila, sem revelar demasiado, apenas o suficiente para ela saber que estou aqui… que me preocupo… que a culpa que sinto não é por mim, mas pela dor que possa ter causado a ela. A mensagem tinha de lhe chegar sem perigo, escondida numa dobra, entregue não pelo Manel, mas talvez deixada num ponto acordado, um sítio discreto onde só ela olharia.
Escrever este pequeno bilhete trouxe-me uma faísca de esperança, mas também um novo receio. E se ela agora tivesse medo de mim? E se, por causa disto, tivesse sido proibida até de pensar no meu nome? A dúvida crescia, mas a ideia de nada fazer seria ainda pior — deixar o silêncio vencer seria como desistir dela. E eu não consigo.
Ao regressar a casa, sentei-me junto à janela do meu quarto com o bilhete dobrado na mão. Lá fora, o entardecer tingia o céu de tons tristes, como se ele próprio soubesse da minha aflição. O bilhete repousava leve entre os dedos, mas dentro de mim pesava como chumbo. Era uma esperança frágil… mas era a única que tinha.
Termino o dia com esta inquietação funda: estarei a ajudá-la ou a complicar-lhe ainda mais a vida? O medo e a ternura misturam-se dentro de mim, sem forma clara. Só sei que, de alguma maneira, preciso que ela saiba que não está sozinha. Amanhã entregarei este bilhete como quem deposita um último pedido aos deuses — discreto, silencioso, e cheio de tudo o que não consigo dizer em voz alta.
« Página anterior / Índice / Página seguinte »