Dor em silêncio

Sábado, 6 de Setembro de 1975 

O dia amanheceu sem pressas, como se tivesse acordado antes de mim e se deitasse à minha espera, quieto. O Manel apareceu à porta ainda com o cabelo desalinhado, e ficamos ali uns minutos a conversar como dois velhos marinheiros que não têm porto certo, mas sabem sempre regressar um ao outro. Depois, a casa engoliu-me outra vez — e eu deixei.

A tarde passou-se comigo estendido no quarto, a ouvir música como quem tenta alinhar o mundo pelo compasso de uma canção. Havia algo de morno no ar, uma languidez que não chegava a doer, mas que também não trazia paz. Era só o peso discreto de quem espera por alguém que não chega.

Mais tarde, o meu pai convidou-me para ir lanchar ao café. Fomos os dois, numa dessas caminhadas silenciosas em que o coração anda mais cheio do que a boca sabe dizer. O cheiro a bicos de pato e um galão quase me arrancou um sorriso — quase.

À noite, seguimos para o cinema. O filme passava no ecrã como se fosse de outra vida: pessoas a correr, a amar, a perder-se em diálogos que não eram meus. Eu estava lá, mas faltava-me qualquer coisa — um fio, um olhar, uma presença.

O pior é que passei o dia inteiro com o mesmo desejo a fazer-me nó na garganta: cruzar-me com a Dila, por acaso ou por milagre. Nem que fosse um relance, uma sombra dela a passar por mim. Mas não aconteceu. O destino, esse brincalhão preguiçoso, tirou o dia para me contrariar.

E ainda assim… não senti que tivesse perdido tudo. Talvez porque o amor, quando é verdadeiro, não se extingue na ausência — expande-se nela. A falta dela fez-se sentir, sim, mas também me lembrou que aquilo que vivi com ela ainda não acabou. Há vínculos que o tempo não sabe desfazer. Há ausências que, em vez de fechar portas, abrem janelas.

Hoje, apesar do vazio, continuo a acreditar: ela e eu ainda não dissemos a última palavra. A história, teimosa, ainda respira.


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