O dia em que o silêncio pesou mais que o mundo
Sexta-feira, 5 de Setembro de 1975
A manhã abriu-se num tom baço, como se o céu tivesse acordado cansado de si próprio. Fui até casa do Manel sem grande convicção — precisava apenas de estar perto de alguém que não me pedisse nada. Mal cheguei, percebi que não ia conseguir ficar. Havia em mim um vazio que não combinava com paredes alheias, e regressei a casa quase no mesmo passo em que saí.
Passei o resto do dia estendido no chão do meu quarto, a ouvir música como quem tenta colar os pedaços que se vão soltando por dentro. As canções não ajudaram, mas também não atrapalharam. Limitavam-se a acompanhar-me, tal como se acompanha alguém que já não sabe se está perdido ou apenas cansado.
Ao fim da tarde o Manel e o Benjamim apareceram, trazendo com eles aquele jeito meio desajeitado de tentar animar sem perguntar. Ficaram até tarde, a falar do que se lembravam e do que não importava, como se as palavras servissem de rede para eu não cair demasiado fundo. Agradeci-lhes em silêncio.
E, no entanto, mesmo cercado de amigos, a resposta da Dila pairava sobre mim como uma sombra que não pede licença. Doía — não pelo que dizia, mas pelo que confirmava. Não era apenas um não; era um espelho levantado à altura do peito, a mostrar-me aquilo que não queria ver.
Quando finalmente fiquei sozinho, a casa pareceu maior e eu menor. E dei por mim a pensar que a tristeza não é um bicho que se combate à força — é um visitante teimoso que se senta connosco até decidir ir embora.
No fundo, estou a aprender com o tempo que o amor também tem destas coisas: às vezes leva-nos ao cume, outras deixa-nos no sopé a olhar o caminho que julgávamos já ter subido. Mas, mesmo assim, há sempre um passo seguinte à nossa espera. Sempre.
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