O Não (!) demolidor
Quinta-feira, 4 de Setembro de 1975
O dia nasceu com uma mansidão quase preguiçosa, como se o próprio céu quisesse poupar-me ao peso que me esperava. A manhã era clara, mas sem entusiasmo: uma luz baça, meio esquecida, filtrada por nuvens altas que prometiam tempestade mais tarde. Eu sentia tudo isso na pele — aquela sensação de que algo se está a formar no ar, uma espécie de aviso silencioso. Mas caminhei como se não soubesse. Quem ama adia sempre a queda.
Passei as horas a vaguear pelas ruas conhecidas, tentando ocupar o pensamento com tudo excepto aquilo que realmente me importava. Mas era inútil. A carta pairava em mim como um pássaro inquieto. Hoje ela responderia. Hoje eu saberia. Hoje, talvez, o mundo mudaria — ou me desabaria aos pés.
Quando a vi ao longe, junto ao muro que sempre nos servia de porto, senti o corpo inteiro retesar-se como uma corda prestes a ceder. Ela também me viu. E, por um instante fugidio, pareceu sorrir — não um sorriso aberto, mas daqueles que surgem quando não se sabe bem como pousar o olhar.
Aproximei-me. O coração batia tão alto que temi que ela o ouvisse.
— Olá, António… — disse ela, baixinho, como quem pisa gelo fino.
— Olá, Dila… — respondi, com a voz mais serena do que realmente era. Aliás, se a minha alma tivesse voz própria, estaria a correr pela rua em pânico.
Houve um silêncio breve. Aquele silêncio cheio. Cheio demais.
Ela mexeu nos dedos, depois alisou a saia, depois suspirou. Estava nervosa. Eu também. Parecíamos dois miúdos à porta de um segredo que não sabíamos se queríamos abrir.
— Li e reli vezes sem conta a tua carta… — murmurou.
O mundo encolheu até caber naquele único fio de voz.
— E então? — perguntei, num fio ainda mais curto.
Ela ergueu os olhos. Havia ali ternura. Havia pena. Havia uma espécie de guerra antiga, dessas que nunca se vencem.
— António… — começou, e o meu peito já sabia, antes de o ouvido saber — … eu gostei muito do que escreveste. A sério que gostei. Mas… eu… eu não posso.
Foi como se alguém tivesse fechado uma janela por dentro de mim.
— Não podes?... Mas porquê? — repeti, tentando apanhá-la antes que ela me fugisse das mãos e das certezas.
Ela abanou a cabeça devagar, num gesto que era mais triste do que qualquer lágrima.
— Eu sou muito nova. Demasiado nova para essas coisas… — disse, com a voz a oscilar entre o embaraço e a culpa. — E depois… a minha religião… tu sabes… nós, Testemunhas de Jeová, não podemos ter relações com pessoas de fora do nosso credo. Não é permitido. Não é… correcto. E os meus pais…
O resto ficou suspenso no ar, como uma frase que não precisava ser dita porque já morava no meio de nós.
Senti um peso a cair-me nos ombros, um peso que me obrigou a baixar um pouco a cabeça para não tombar de vez. Mas ainda fui capaz de falar — com dificuldade, mas fui.
— Eu não queria fazer-te mal… — disse, quase num sussurro. — Nem te complicar a vida. Só queria que soubesses o que sinto. Mesmo que fosse só isso.
Ela aproximou-se um pouco. Não muito — a distância entre nós era já uma fronteira inultrapassável. Mas o suficiente para que eu sentisse o calor da sua respiração quando disse:
— Eu sei, António. E isso é bonito. A sério que é. Mas eu… eu não posso corresponder. Não posso. Mesmo que quisesse.
Aquilo doeu mais do que tudo. “Mesmo que quisesse.” O quase-amor é uma faca.
Forcei um sorriso — daqueles improváveis, meio tortos, que aparecem quando se tenta não desabar.
— Obrigado… por me dizeres a verdade — disse. — Dói, mas… prefiro assim…
Ela assentiu, aliviada e triste ao mesmo tempo.
— Tu és uma boa pessoa, António. És mesmo. Só… não pode ser…
O vento levantou-se naquele instante, como se o céu tivesse finalmente decidido rasgar-se. Lá ao fundo, as nuvens ganharam peso e movimento. A tarde escureceu de repente, como se o tempo, cúmplice, quisesse encerrar a cena.
Despediu-se com um aceno pequeno e doce entregando-me um pequeno bilhete — e foi isso que me destruiu. A delicadeza dela. A forma como parecia querer proteger-me justamente enquanto me dizia que não podia ficar.
Fiquei a vê-la afastar-se, cada passo seu mais lento para mim do que para ela. E quando enfim a perdi de vista, a tempestade começou mesmo: grossa, ruidosa, como se o céu tivesse esperado a resposta dela para ter licença de desabar.
Caminhei para casa encharcado por dentro e por fora. A dor vinha em ondas — uma quente, outra fria. Nenhuma deixava ar.
Mais tarde, já sozinho no quarto, percebi que o corpo estava exausto, mas a cabeça não encontrava repouso. Revi tudo: o olhar hesitante dela, as mãos nervosas, a ternura com que me disse “não”. E a crueldade involuntária desse mesmo “não”.
Era como carregar um coração partido num balde furado. Quanto mais tentava recolher os pedaços, mais me escorriam pelos dedos.
A noite caiu pesada. E eu, sem força para mais nada, deixei-me estar assim: dorido, quebrantado, mas vivo. Porque mesmo na dor, há um sopro de futuro — e talvez um dia, quem sabe, consiga olhar para trás e ver este dia não como um fim, mas como o primeiro remendo de mim.
Mas hoje… hoje doeu muito. Hoje cansou. Hoje quebrou.
E só me resta escrever — para ver se amanhã me vai doer um bocadinho menos.
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