O silêncio onde a dúvida respira

Quarta-feira, 3 de Setembro de 1975

O dia passou-se em casa, envolto numa quietude morna, quase indiferente. As horas arrastaram-se preguiçosas, e só a meio da tarde a bicicleta me levou para fora de casa, como se fosse um pedido de liberdade, um pequeno sopro de ar fresco no meio da monotonia. Pedalei sem destino, ouvindo apenas o ritmo das rodas contra a gravilha, e por momentos tentei afastar os pensamentos que insistiam em ocupar-me a mente.

À noite, o Benjamim apareceu, trazendo consigo uma espécie de companhia silenciosa. Fomos juntos ao cinema com o meu pai, mas o que dava não despertou interesse, e voltamos cedo, quase sem palavras. A presença do Benjamim continuou até mais tarde, e só depois ele se foi embora, deixando-me com a minha própria sombra.

No fundo, apesar da aparente calmaria, sentia um peso surdo no peito. A pergunta que deixara à Dila, tão simples e ao mesmo tempo carregada de significado, pairava como uma nuvem escura sobre a minha tranquilidade. O que responderia? Será que responderia? Cada dia que passava parecia arrastar a dúvida mais fundo, e uma inquietação que eu não sabia explicar crescia dentro de mim.

Fecho o diário com este sentimento: um nó de apreensão, um sussurro de preocupação. O futuro paira diante de mim incerto, e tudo o que posso fazer é esperar. Esperar que ela fale, que o papel do seu silêncio se desfaça, que me ofereça, finalmente, alguma clareza. Mas até lá, resta apenas a pergunta que não me larga: o que será que ela vai responder?


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