O eco doce da manhã

Terça-feira, 2 de Setembro de 1975

A manhã iniciou devagar, como quem espreguiça os braços depois de um sonho morno. O ar parecia lavado, cheio daquele silêncio que Setembro traz quando ainda não decidiu se é verão ou promessa de outono. Saí sem destino certo, permiti deixar que os passos me levassem — e foram eles, os passos, que me deram a surpresa.

A Dila vinha pela estrada acima, distraída com qualquer coisa que não cheguei a perceber. Quando me viu, fez aquele sorriso pequeno, quase envergonhado, como se o dia tivesse acabado de melhorar sem pedir licença.

Ah… és tu. — disse ela, com um brilho que lhe fugiu para os olhos antes de fugir para a boca.

Sou eu, sim — respondi, a tentar fazer de conta que não me faltou um bocadinho de ar. — Está tudo bem contigo?

Ela aproximou-se, não muito, só o suficiente para parecer que queria estar ali.

Mais ou menos. Ontem, à noite, ouvimos barulho do lado de fora de minha casa… — começou, baixando um pouco a voz, como se contasse um segredo roubado. — A minha mãe disse logo que devia haver alguém às uvas.

Não resisti.

Bom, se fosse eu, tinhas visto um vulto elegante, discreto, um verdadeiro artista das uvas… — disse, a fingir gravidade. — Mas infelizmente estava a dormir. Sou inocente.

Ela riu-se, um riso rápido, leve, que me acertou mesmo no centro do peito.

Eu pensei logo que não devia ser nada de especial. Mas fiquei com aquela curiosidade… sabes como é...

Sei. — respondi, com mais ternura do que coragem. — E se algum dia eu decidir ir às uvas, prometo avisar antes com pompa e circunstância. Não quero causar alarme na tua família.

Ela abanou a cabeça, divertida.

Tu és tolo.

Um pouco. — admiti. — Mas só quando tu estás perto…

O rubor subiu-lhe às faces — aquele rubor macio que nunca mente — e foi essa cor, quase escondida, que fechou o momento. Despedimo-nos devagar, como quem tem receio de estragar o encanto que ainda flutuava no ar.

A tarde levou-me para a cama, onde dormi como se alguém tivesse desligado o mundo. À noite, o futebol na televisão do café Santiago — atrasado, confuso, cheio de empates e palavrões abafados — prendeu-me até à uma e meia. Depois, eu, o meu pai e o meu cunhado fizemos parte do caminho a pé, arrastando as pernas por ruas que já só pertenciam aos gatos.

Mas, por muito que o dia tivesse sido longo, por muito que a noite tivesse pesado nos calcanhares, havia uma coisa que não me abandonava.

A imagem dela a sorrir na manhã fresca. A maneira como o riso lhe fugiu antes de ela o segurar.
Aquela cor leve nas faces quando lhe disse a verdade ao jeito de brincadeira.

No fim, tudo o que ficou foi isto: a Dila dentro de mim, outra vez, como um lume pequenino que não precisa de vento para crescer.


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