Um Dia Que Procura o Seu Lugar

Segunda-feira, 1 de Setembro de 1975

A manhã abriu-se num silêncio morno, desses que o fim do verão sempre traz. Levantei-me sem pressa, a sentir o corpo ainda meio desalinhado do ritmo habitual. Setembro tinha chegado, mas sem grande alarido — apenas um ar diferente, como quando se muda uma cortina de sítio.

Passei a manhã entregue a pequenas coisas: arrumar um livro fora de lugar, ajudar em casa, ouvir o vento a bater nas árvores de fruto do quintal como quem anuncia mudança sem pressa. Em conversa com o Benjamim, no meio de frases soltas sobre bicicletas e horários, houve um breve instante em que senti a ausência de alguém. Da Dila. Foi algo diferente; não apertou o meu coração. Foi como uma sensação de ternura que me abraçou. Como uma nota que se ouve por engano e fica no ar.

De tarde, demos um passeio. Coisas simples, sem pressa. A certa altura, ao passar num caminho que conheço demasiado bem, imaginei-a ali por um segundo ou dois — e o pensamento lentamente foi-se dissipando como um perfume de alguém que passa e se desvanece lentamente, tão natural como veio. Sem dramas. Apenas a memória discreta de uma batida do coração que se aplaca.

O resto do dia deslizou sem surpresas. Setembro parecia estar apenas a observar-me, a perceber como me ajeitava a este novo ritmo. Fui-me sentindo tranquilo, como quem retoma o passo devagar, sem saber ainda para onde vai mas aceitando o caminho.

Quando a noite se instalou, deixei-me ficar a pensar no dia, sem grandes conclusões. Só aquela paz quieta de aceitar que tudo segue o seu rumo, e que aquilo que tiver de acontecer acontecerá a seu tempo. Ainda assim, guardo cá dentro uma pequena chama — discreta, mas teimosa. Que ilumina só o suficiente para eu não me perder. E, se pudesse escolher, diria baixinho que desejo que ela continue a arder. Sempre.


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