Instala-se o frio na relação?

Quarta-feira, 10 de Setembro de 1975

O dia nasceu claro e luminoso, mas o meu coração parecia sentir a luz de forma diferente. Cada raio de sol atravessava-me a esperança, anunciando que talvez hoje a visse. E, no entanto, havia medo, um medo silencioso de que tudo pudesse permanecer como estava: distante, contido, suspenso.

Quando finalmente a encontrei, senti uma alegria imediata, seguida de hesitação. O sorriso dela era breve, quase cauteloso, e eu percebi, num instante, que algo havia mudado. O pedido de namoro, recusado no último encontro, flutuava entre nós, invisível mas pesado. Nenhum de nós ousava tocar nele, como se a menção pudesse quebrar o delicado fio que ainda nos ligava.

Falamos de coisas pequenas, banais, como se o mundo à nossa volta fosse o suficiente para preencher o vazio que pairava entre nós. A sua voz era doce, mas contida, como se se guardasse do que sentia. Cada gesto seu era comedido, cada palavra cuidadosamente escolhida, e eu sentia o afastamento crescer, lento, quase imperceptível, mas real.

Houve momentos em que quis tomar-lhe a mão, dizer-lhe tudo o que o peito gritava, desfazer o silêncio que me corroía. Mas as palavras não vieram, ficaram presas, engolidas pelo medo. A tarde passou assim, num arrastar de minutos densos e silenciosos, onde o que não se disse pesava mais do que qualquer palavra trocada.

Quando chegou o momento de nos despedirmos, senti o coração apertar-se como nunca. O frio que antes era apenas uma suspeita agora parecia real, instalado entre nós, invisível mas palpável.

Até à próxima… Dila… — disse, tentando sorrir.

Até… qualquer dia. — respondeu ela, e o silêncio que se seguiu foi mais eloquente do que qualquer frase.

"Até qualquer dia…" caiu-me em cheio em cima do peito como se fosse uma despedida… definitiva? Ou seria a minha insegurança a falar?

Voltei para casa com o coração pesado, um peso que a luz do dia não conseguia dissipar. A esperança ainda existia, teimosa, mas mesclada com dor, com a percepção de que a relação com a Dila começava a desgastar-se sob o fardo do que não se podia dizer, do que ficava suspenso entre nós. Hoje compreendi que o amor exige coragem, e talvez a minha ainda não fosse suficiente.


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