O peso da ausência

Terça-feira, 9 de Setembro de 1975

Acordei com o coração a insistir no impossível, como se cada batida fosse uma chamada para algo que nunca chega. Fui para o local onde me deveria ter encontrado ontem com a Dila, como se fosse atravessar o próprio destino, mas a realidade devolveu-me apenas a irmã dela — um vulto que separava o que mais desejo. Sorri, tentei enganar-me, mas a dor apertava por dentro, silenciosa e firme.

De tarde, as ruas gastas tornaram-se cúmplices da minha inquietação. Pedalei sem rumo, sentindo o vento rasgar a pele e tentar roubar-me a angústia. Passei por lugares conhecidos, mas tudo parecia distorcido, como se o mundo tivesse se recolhido em vitrinas embaçadas, deixando-me à margem.

Quando a noite caiu, o silêncio tomou conta da casa, pesado como chumbo. Sentei-me na beira da cama, olhos fixos no escuro, e admiti a verdade de que tinha fugido durante o dia inteiro: a solidão não chega devagar. Instala-se de rompante, ocupando cada canto do corpo, ensinando que algumas dores não gritam, mas rasgam por dentro.

Ainda assim, teimoso, repeti a mim mesmo que amanhã poderia ser diferente. Que haveria uma fenda de luz a atravessar o peso da ausência. Que cada sombra que se interpõe não é apenas um muro, mas também um convite para aprender a esperar, a amar, mesmo quando tudo parece impossível.

Segui em frente, com a certeza de que o coração continua, mesmo ferido, mesmo inquieto, sempre à procura do que insiste em não vir — e talvez seja nessa procura que reside a verdadeira esperança.


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