Monólogo com o Diário

Segunda-feira, 8 de Setembro de 1975

A manhã começou torta, meu velho companheiro. Levantei-me quase ao meio-dia, com aquela pressa que só existe quando o coração acredita que vai ser correspondido. Mas em vez da Dila veio a irmã — uma sombra do que eu procurava, um eco que não responde. Voltei para casa como quem regressa derrotado de uma batalha que nem chegou a acontecer.

De tarde refugiei-me num livro, como quem se esconde atrás das páginas para não encarar o peso do que não viveu. A leitura é boa companhia, sim, mas hoje não me salvou. Hoje só disfarçou. No fim da tarde fui para a Academia com o Benjamim, que apesar da conversa, nada me conseguiu tirar deste torpor. E à noite ele ainda passou em minha casa, por breves minutos, como se também ele pressentisse que eu precisava de não estar totalmente só.

Agora estou aqui, contigo, meu diário — o único que não me vira a cara, não falta aos encontros, não envia irmãs no lugar dela.

Sabes, às vezes acho que tu és o único que me escuta sem ironia. Falo para estas páginas e imagino-te atento, como se respirasses devagar para não me interromper. Digo-te que a frustração já não bate à porta: entrou, sentou-se no meu quarto, e está a tirar os sapatos para ficar.

E eu? Eu tento rir-me disto, como se fosse apenas mais um tropeção. “Calma, António”, digo para as paredes, “o impossível só está atrasado, não desapareceu.” Mas nem eu consigo acreditar no que digo.

Ainda assim escrevo. Porque enquanto escrevo, tu acenas com a cabeça — ou eu imagino que sim — e o mundo volta a fazer um bocadinho de sentido.

Vá, meu velho amigo, guarda estas linhas. Amanhã talvez a vida me responda. Ou talvez não. Mas enquanto tu existires, nunca estarei completamente só.


« Página anterior / Índice / Página seguinte »