Silêncio persistente...

Quarta-feira, 22 de Outubro de 1975

Hoje de manhã fui ao posto médico marcar uma consulta para o meu pai. No caminho, deparei-me com a irmã da Dila. Troçamos apenas um cumprimento formal e cada um seguiu o seu caminho, como se o tempo e as circunstâncias nos impusessem uma distância. Mais tarde, ao refletir sobre o encontro, senti um pequeno arrependimento por não lhe ter perguntado como estava a irmã e a que horas teria aulas no liceu. A consciência de ter perdido uma oportunidade simples fez-me ficar um pouco inquieto, como se cada atitude tivesse agora um peso maior do que outrora.

A tarde trouxe o regresso à escola, desta vez com apresentações dos professores e a introdução de novas matérias. As aulas seguiram-se com a cadência habitual, mas a presença da Dila continuava a pairar no meu pensamento. Cada frase dita pelos colegas, cada gesto que via nos corredores era interpretado, pela minha mente, como se fosse um possível indício do seu aparecimento. A expectativa silenciosa manteve-me atento e nervoso, como se o reencontro fosse uma questão de segundos, mas sempre adiado.

O dia terminou com uma reflexão calma, mas carregada de ansiedade: percebi que a rotina e a normalidade podem coexistir com uma inquietação interna. A Dila, mesmo ausente, continua a exercer uma presença que não se explica, e cada dia que passa aumenta a atenção silenciosa que deposito nos pequenos detalhes, à espera de a ver surgir de novo.


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