A disciplina silenciosa das noites
Quinta-feira, 14 de Outubro de 1976
Hoje voltei a sentar-me diante destas páginas com a sensação de mãos vazias. A inspiração parece andar escondida em algum lugar onde não a consigo alcançar. Talvez seja apenas o reflexo do meu dia-a-dia — sempre igual, sempre a repetir os mesmos passos, como um relógio que já conhece de cor o caminho dos ponteiros.
E então pergunto a mim mesmo: que fiz hoje que mereça ficar escrito? Que aconteceu que valha a pena guardar?
Se seguisse apenas essa lógica, fechava o diário já aqui. Duas linhas secas e silêncio. Mas há qualquer coisa dentro de mim que não deixa. Uma espécie de pequena teimosia da alma. Quando chega a noite, quando o quarto se recolhe no seu próprio sossego, sinto quase como uma obrigação sentar-me e escrever — nem que seja apenas isto: palavras simples, pensamentos sem brilho, pedaços de um dia comum.
Curioso… escrever assim, sem grande história, acaba por me trazer uma estranha paz. Como se cada frase fosse um suspiro que sai do peito. Não muda o dia que passou, mas alivia o peso de o carregar sozinho.
E quando fecho o diário sinto sempre a mesma sensação discreta: cumpri algo que devia cumprir. Uma missão pequena, silenciosa, mas minha.
Agora resta-me apagar a luz.
Deixar que o sono venha devagar.
E esperar que o dia de amanhã traga qualquer coisa — nem que seja apenas uma centelha — que me dê vontade de voltar aqui e abrir estas páginas outra vez.
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