Entre a confiança e a sombra

Sexta-feira, 15 de Outubro de 1976

Durante esta semana, no CRM, eu e alguns colegas temos trabalhado com afinco no pequeno grupo que criei. A ideia nasceu quase por brincadeira, mas acabou por ganhar corpo: estamos a preparar uma exposição sobre fenómenos insólitos. Entre papel, cola e imaginação, têm surgido coisas curiosas. O maior orgulho do grupo é, sem dúvida, um foguetão de cartolina com quase dois metros de altura. Ao lado dele vão aparecendo ovnis, engenhos estranhos e outros artefactos que mais parecem saídos de histórias de ficção.

Hoje surgiu uma novidade que animou ainda mais o ambiente. Os adultos do Centro informaram-nos que um organismo do Estado, desses que apoiam organizações juvenis, nos virá visitar em breve. A notícia espalhou-se rapidamente e foi recebida com entusiasmo. De repente, aquilo que andávamos a fazer entre risos e improvisos ganhou um ar mais sério.

Sem que ninguém tivesse de o dizer em voz alta, acabei por assumir o papel de contacto para essa visita. Ninguém se opôs. Na verdade, pareceu natural que assim fosse. Tenho reparado que, entre os meus colegas, olham muitas vezes para mim como se eu fosse um pouco mais velho do que realmente sou. Talvez seja a maneira como organizo as coisas, ou como tomo certas decisões sem hesitar demasiado.

Isso faz-me sentir bem. Dá-me uma sensação de confiança, quase de autonomia, como se eu fosse capaz de conduzir alguma coisa com rumo certo.

Mas, curiosamente, ao mesmo tempo nasce dentro de mim uma dúvida silenciosa. Às vezes sinto-me um pouco como um actor a desempenhar um papel — alguém que parece seguro por fora, mas que por dentro ainda carrega muitas perguntas.

Se consigo mostrar esta segurança diante dos outros, porque é que não consigo usá-la para recuperar certas perdas do passado? Porque é que essa mesma firmeza me falta quando olho para mim próprio?

Talvez ainda não tenha chegado o momento.

Ou talvez o caminho para recuperar o que se perdeu esteja apenas a começar, sem que eu ainda me tenha apercebido disso.

O futuro, esse velho contador de histórias, acabará por responder. Entretanto sigo em frente, passo a passo, entre a confiança que os outros vêem em mim… e as dúvidas que só eu conheço.


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