O dia em que a esperança faltou à porta

Sábado, 16 de Outubro de 1976

É estranho como a expectativa pode ser uma espécie de armadilha silenciosa. Construímos dentro de nós um momento, quase como quem ergue um pequeno palco, e depois ficamos à espera que a vida entre em cena. Mas às vezes o pano levanta-se… e não aparece ninguém.

Hoje foi assim.

Passei a manhã no CRM mergulhado num aborrecimento espesso. Nem uma pessoa para atender, nem movimento no Centro, nem sequer no gabinete do grupo apareceu algum dos membros. O silêncio ocupou todos os cantos, como se o lugar tivesse sido abandonado por um dia inteiro.

E, pior ainda, a organização que eu tanto esperava — aquela que poderia trazer um subsídio e dar algum reconhecimento ao nosso trabalho — simplesmente não apareceu.

Esperei.

Olhei para o relógio mais vezes do que devia.

E nada.

Acabei por voltar para casa cabisbaixo. Talvez tenha colocado a fasquia demasiado alta. Talvez tenha acreditado que as coisas iam acontecer exactamente como eu tinha imaginado. A verdade é simples e um pouco áspera: o mundo não caminha ao ritmo da nossa vontade.

Talvez esta tenha sido apenas uma pequena lição da vida. Dessas que não vêm escritas em lado nenhum, mas que se aprendem na prática.

O Manel também não apareceu hoje, tal como ao longo desta semana. Aposto que está outra vez de castigo. Com ele é quase sempre assim: ou fez alguma coisa que não devia, ou deixou de fazer algo que lhe mandaram. Tenho pena dele. No fundo é um bom amigo, apenas vive num mundo onde as regras parecem cair-lhe sempre em cima.

Mas nada posso fazer.

À tarde resolvi não dar espaço à tristeza para se instalar. Peguei em música e num livro. Entre uma coisa e outra, deixei o tempo correr. A leitura puxa-me para dentro de outros mundos e a música tem esse dom curioso de arrumar os pensamentos como quem fecha gavetas abertas.

Quando dei por mim, o dia já estava quase no fim.

E assim, sem grandes acontecimentos, também não tive tempo para pensar demasiado nas pequenas desilusões do dia. Talvez, às vezes, ocupar o espírito seja a melhor forma de o proteger.


« Página anterior / Índice / Página seguinte  »