A véspera inquieta
Domingo, 17 de Outubro de 1976
Hoje tomei uma pequena decisão: não iria enfrentar a monotonia de ontem. Em vez de ir para o Centro, fiquei em casa. Às vezes mudar apenas uma peça do dia já altera o desenho todo.
Levantei-me tarde, sem pressas. Peguei num livro e deixei-me cair dentro da história como quem entra num outro mundo. As horas passaram quase sem dar por elas, até a voz da minha mãe me chamar para almoçar. Até ali o dia corria tranquilo, sereno, sem grandes pensamentos nem inquietações.
À tarde o caminho foi praticamente o mesmo. Voltei ao livro, voltei ao sofá, voltei ao silêncio confortável de um domingo que se arrasta devagar.
Mas com o avançar das horas começou a nascer em mim um nervosinho estranho. Primeiro discreto, depois mais insistente. Uma pequena dor na barriga, dessas que parecem avisar que alguma coisa se aproxima. Só que eu não percebia o quê.
Andei assim algum tempo, meio inquieto, meio distraído, até que de repente a resposta caiu como um relâmpago simples.
Amanhã começam as aulas.
Levantei-me quase de um salto do sofá, onde já estava meio a dormitar, e fui para o quarto preparar os livros para o dia seguinte. Cadernos, canetas, tudo alinhado como soldados antes de uma marcha.
E agora que a noite chegou, só quero que o sono viesse depressa. Que a madrugada passasse rápido e que o amanhã chegasse sem demoras.
Mas o nervosismo não desapareceu. Pelo contrário, parece ter crescido.
O curioso é que nem percebo bem porquê. Não é a primeira vez que vou para a escola. Já conheço os corredores, as salas, o cheiro dos livros e o barulho das campainhas.
Mesmo assim, algo dentro de mim anda agitado, como água num copo que alguém acabou de mexer.
Se este nervosismo não se acalma depressa, desconfio que esta noite não vai ser grande coisa. O sono pode até vir… mas não sei se virá tranquilo.
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