Quando a tarde acendeu uma pequena luz

Quarta-feira, 13 de Outubro de 1976

Hoje decidi fazer uma pequena rebelião contra mim próprio. Ontem queixei-me da rotina, da falta de vontade para procurar algo diferente. Pois bem, hoje resolvi experimentar.

Fiz poemas. Ou melhor, quadras. Simples, curtas, mas minhas.

Foi uma experiência estranha e surpreendente. Comecei quase por brincadeira, como quem risca palavras num papel apenas para ver no que dá. E de repente aconteceu algo raro: perdi a noção do tempo. As palavras começaram a puxar umas pelas outras, como se já estivessem todas à espera dentro de mim e apenas precisassem de uma porta aberta para sair.

A rotina do dia manteve-se. O CRM, os mesmos corredores, as mesmas horas. Um dia cinzentão, daqueles que passam sem deixar marca no céu. Mas dentro de mim aconteceu outra coisa.

A poesia fez despertar algo que eu não conhecia bem. Uma espécie de satisfação tranquila, como se uma janela tivesse sido aberta numa casa fechada há muito tempo. Foi tão intenso que tenho a sensação de que o dia só nasceu verdadeiramente a meio da tarde. Até lá tinha sido apenas manhã prolongada.

Quando dei por mim, alguém chamou a atenção de que o Centro ia fechar. Só então percebi que as horas tinham corrido sem pedir licença.

Ainda pensei em passar para aqui os versos que escrevi. Fiquei algum tempo com essa ideia na cabeça. Mas depois achei que este diário deve relatar apenas os acontecimentos do dia, não o resultado deles. Os poemas pertencem a outro lugar, talvez a outro caderno, talvez a outro tempo.

Posso estar enganado. É possível que o António do futuro gostasse de encontrar aqui essas palavras. Quem sabe.

O futuro tem sempre opiniões que o presente ainda não consegue imaginar.


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