O cansaço manso dos dias iguais
Terça-feira, 12 de Outubro de 1976
Mais um dia cumprido. E demasiado comprido. Há dias que parecem elásticos gastos: esticam-se, esticam-se… e nunca mais acabam. Tudo aquilo que faço vai-me cobrando minutos, como se cada pequena tarefa pedisse um tributo de tempo que eu podia estar a gastar em algo bem mais interessante. No fim fico exausto, não tanto do trabalho, mas da sensação de estar sempre no lugar errado da hora.
E então pergunto-me — com alguma honestidade, talvez até com um pouco de ironia — se tenho tanta razão de queixa, porque não procuro outra coisa para fazer. O mundo não acaba na rotina. Há caminhos novos, portas por abrir, decisões que poderiam mudar o rumo destes dias.
Mas a verdade é menos heróica do que isso.
Sinto-me sem forças para começar algo diferente. Como se a vontade estivesse cansada antes mesmo de dar o primeiro passo. E assim fico onde estou. Não por escolha entusiasmada, mas por uma espécie de rendição tranquila.
Submeto-me à rotina.
Ao menos nela existe uma ordem. Um fio invisível que conduz as horas e impede que tudo se desfaça num vazio maior. Cumpro as tarefas, passo pelos lugares de sempre, encontro as mesmas pessoas, faço os mesmos gestos. E nesse movimento repetido há uma pequena certeza: estou aqui.
Pode parecer pouco, mas às vezes basta.
Porque quando o dia termina e olho para trás, mesmo que nada tenha acontecido de verdadeiramente importante, posso dizer que existi dentro dele. Que caminhei ao lado das horas e que, de algum modo, também as cumpri.
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