Entre o corpo cansado e a alma distante
Segunda-feira, 11 de Outubro de 1976
A noite passada não dormi. Fiquei às voltas na cama como quem procura um lugar dentro de si e não o encontra. Estou doente, disso tenho quase a certeza. Só não sei se é o corpo ou se é a alma que me pesa desta maneira.
Mas não me deixei quebrar. Levantei-me e corri para as minhas rotinas como um soldado que já não acredita na batalha mas continua a marchar. Sem vontade, é verdade. Com esforço também. Ainda assim, determinado a não me deixar vencer por este cansaço que me ronda.
O CRM abriu-me a porta como sempre. Entrei. Mas tenho a sensação de que o meu espírito ficou do lado de fora, encostado ao portão, a olhar para dentro sem vontade de me acompanhar. Passei pelas salas e pelos corredores como quem flutua. Cumpri o que me estava destinado, falei o necessário, fiz o que tinha de ser feito.
Não vacilei na construção das maquetes do clube. As mãos trabalharam com a precisão de sempre. Curioso como o corpo continua a obedecer mesmo quando a alma se distrai para longe.
Estive presente por fora e ausente por dentro.
Há momentos em que sinto que o tempo já não tem tempo para mim. Corre, avança, empurra os dias uns contra os outros. E eu, em vez de o agarrar, deixo-o escorrer pelos dedos. Como se desperdiçasse o próprio tempo que o tempo ainda insiste em me oferecer.
Talvez isto passe. Tudo passa, dizem.
Mas hoje sinto-me como uma casa habitada apenas pelas paredes. O resto — aquilo que realmente a torna viva — parece ter saído para dar uma volta… e ainda não regressou.
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