Quando a alma caminha em círculos

Domingo, 10 de Outubro de 1976

Os dias sucedem-se como carruagens iguais num comboio sem paisagem. Passam, um após o outro, e deixam em mim a sensação de estar a escrever sempre a mesma linha com palavras diferentes. A monotonia começou a colar-se às horas como poeira teimosa. Estou cansado de repetir o mesmo gesto: viver um dia, vir aqui à noite e tentar encontrar nele alguma coisa digna de memória.

Se não fosse este compromisso que fiz comigo próprio — uma espécie de promessa silenciosa ao António do futuro — talvez já tivesse fechado este diário e deixado as páginas em branco. Há dias em que escrever parece mais um dever do que uma necessidade.

Talvez porque a fonte onde durante tanto tempo fui beber a inspiração tenha secado. Ou talvez não tenha secado — talvez apenas esteja longe demais para eu lá chegar. Claro que falo da Dila.

Às vezes fico espantado com isto. Como pode uma rapariga governar assim a vontade de um rapaz? Não com ordens, nem com promessas, mas apenas com a sua ausência. É um poder estranho, silencioso, quase invisível. E no entanto pesa.

Continuo preso a esta sensação de impotência, como se estivesse dentro de uma sala cuja porta eu próprio não sei se quero abrir. Por vezes penso que devia libertar-me disto tudo, deixar que o tempo dissolvesse esta história como a chuva dissolve pegadas no pó. Mas logo a seguir percebo que talvez não queira libertar-me. Talvez esta inquietação também faça parte de mim agora. E é precisamente essa dúvida que me mantém suspenso — nem livre, nem verdadeiramente preso — apenas neste estado de incerteza que me acompanha como uma sombra fiel.

No fundo, talvez a adolescência seja isto: um território onde o coração manda mais do que a razão… e onde um simples nome consegue encher o silêncio de um dia inteiro.


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