O peso invisível das horas
Sábado, 9 de Outubro de 1976
Hoje não foi um dia bom. Começou como tantos outros, sem anúncio de tempestade. De manhã fui ao CRM. Arquivo, papéis, o grupo, conversas que mal aquecem o espírito. Tudo morno, como chá esquecido sobre a mesa.
Mas a tarde trouxe outra cor ao dia. O meu pai adoeceu. Dores de cabeça fortes, aquele ar pesado que se instala numa casa quando alguém não está bem. E, como se a doença chamasse companhia, vieram também as visitas da família dele — visitas que mais inquietam do que ajudam. A casa encheu-se de vozes, passos, perguntas repetidas. Um desassossego que parecia não ter porta por onde sair.
No meio disso tudo percebi uma coisa simples, daquelas verdades nuas que só aparecem quando a vida nos abana: a família que realmente importa é pouca, mas vale por tudo. E a saúde… essa tratamo-la como se fosse eterna, como se estivesse garantida por direito. Só quando vacila é que sentimos o chão a mexer debaixo dos pés.
Mais tarde voltei ao CRM, mas a cabeça não estava lá. O corpo fazia o que tinha de fazer — mexer em papéis, ocupar as mãos, fingir normalidade — enquanto os pensamentos andavam longe, como cães soltos que ninguém consegue chamar de volta.
Há dias em que eu gostava de saber desligar a mente. Bastava um interruptor simples, um gesto seco, e silêncio. Seria tão útil… sobretudo quando os pensamentos escolhem ficar precisamente naquilo que mais magoa.
Mas a mente não tem botão. Continua a trabalhar, teimosa, mesmo quando tudo o que queremos é um pouco de paz. E assim passou este dia — arrastado, inquieto, cheio de coisas que não se resolvem, apenas se suportam.
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