Um pacto silencioso comigo mesmo

Sexta-feira, 8 de Outubro de 1976

Hoje guardei o dia para mim. Sem explicações. Sem culpas. Já há algum tempo que não me oferecia essa espécie de trégua — um tempo limpo de ansiedade, de pressa, de expectativas alheias. Hoje decidi que seria meu. E cumpri.

Levantei-me mais tarde, quase como um pequeno acto de celebração pelo fim das férias que se aproxima. O céu ajudou à decisão: cinzento, fechado, com um frio discreto a anunciar que o Inverno não tarda. A meteorologia, desta vez, foi minha cúmplice. Deu-me o argumento perfeito para ficar em casa, no conforto morno do conhecido.

Voltei a gestos antigos. Ouvi música com atenção, como quem escuta confidências. Gravei outras canções, naquele ritual paciente que exige tempo e silêncio. Li muito. Li até os olhos pedirem pausa e a sonolência chegar sem pedir licença. Não lutei contra ela. Deixei-me ir. Dormitar a meio da tarde teve um sabor quase infantil, uma inocência recuperada.

A televisão esteve ligada, mas era mais presença do que companhia. Um ruído distante que preenchia o espaço sem exigir nada de mim. E, curiosamente, isso bastou.

Ao cair da tarde senti a melancolia aproximar-se — como sempre faz, discreta mas persistente. Desta vez não a deixei instalar-se. Sacudi-a com firmeza, como quem fecha uma janela antes que o frio entre. Nem todos os dias merecem ser entregues à nostalgia.

A noite chegou serena. Caiu sobre mim como uma manta bem ajustada, dessas que aquecem sem pesar. Houve paz. Simples. Sem euforia, mas também sem sombras densas.

Hoje não resolvi o futuro. Não avancei decisões. Não procurei respostas. Limitei-me a estar. E, para já, isso é suficiente.


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