Refúgio entre páginas alheias
Quinta-feira, 7 de Outubro de 1976
Foi um dia liso. Sem arestas. Sem sobressaltos. Passei quase todo o tempo no Centro, mas a ausência de visitantes transformou o espaço num território suspenso. Trabalho, praticamente nenhum. Silêncio, em abundância.
Para não me deixar ficar entregue ao vazio, entretive-me a passar poesia à máquina. Há qualquer coisa de terapêutico no som ritmado das teclas. Cada palavra impressa parece ganhar corpo, como se deixasse de ser apenas pensamento e passasse a existir no mundo. Enquanto datilografo versos que não são meus, sinto que organizo qualquer coisa cá dentro.
Depois fui à biblioteca. Requisitei alguns livros e comecei logo ali a ler um. Histórias de detectives, viagens improváveis, mundos que não me pertencem. E é precisamente por isso que funcionam. Quando leio, não penso. Ou melhor, penso apenas no enredo, nos mistérios, nos caminhos inventados por outros. As minhas preocupações ficam encostadas a um canto, à espera que eu volte.
Neste momento preciso disso: de não pensar.
Há dias em que a cabeça insiste em antecipar cenários — o futuro escolar, o trabalho, a Dila, o que será, o que não será. A leitura oferece-me uma trégua. Não resolve nada, mas suspende. E às vezes suspender é o suficiente para continuar.
O dia arrastou-se mais do que o habitual. A falta de movimento faz o tempo dilatar-se, como se cada hora tivesse minutos a mais. Esperei pela noite quase com ansiedade, como quem aguarda o fechar de uma porta.
Encerrar o dia é, por vezes, a única vitória possível. Hoje foi uma dessas pequenas vitórias silenciosas.
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