Leve como quem evita o abismo
Quarta-feira, 6 de Outubro de 1976
A manhã repetiu-se sem sobressaltos. Depois do bulício dos preparativos para a festa, o CRM voltou à sua respiração habitual, quase sonolenta. Papéis no sítio, vozes mais baixas, o eco dos passos a ocupar o espaço onde antes havia pressa. A excitação cede sempre lugar à calmaria — é uma lei silenciosa das coisas.
Entretanto o Manel apareceu. E eu, sem grande resistência, saí com ele. Há convites que não se recusam porque sabemos, à partida, que nos farão bem.
Fomos caminhar. Sem destino marcado. Sem aquele peso emocional dos dias anteriores. A conversa correu leve, quase superficial, como quem pisa terreno seguro. Falámos da aproximação das aulas — muito atrasadas, sempre envoltas numa névoa organizativa que ninguém entende bem. É curioso como o calendário escolar parece viver numa espécie de desordem crónica, como se também ele estivesse indeciso quanto ao futuro.
Senti-me bem na companhia dele. A amizade tem essa capacidade de estabilizar o que dentro de nós oscila. Ainda assim, evitei certos temas. Os meus maus pressentimentos quanto ao futuro escolar, profissional e… amoroso ficaram guardados. Não por falta de confiança, mas por instinto de preservação. Há pensamentos que, quando verbalizados, ganham peso próprio e passam a comandar o dia. E eu não queria entregar-lhes essa autoridade.
Preferi divagar. Falar de coisas soltas, comentários dispersos, observações banais que, no fundo, são o cimento das tardes tranquilas. Rimo-nos aqui e ali. Nada de memorável, mas também nada de penoso.
O dia chegou ao fim sem compromissos para amanhã. Uma página quase em branco à espera de ser escrita. E talvez haja alguma paz nisso — não saber, não prometer, não antecipar demasiado.
Às vezes a leveza não é alegria. É apenas a decisão consciente de não descer hoje ao fundo das inquietações.
E isso, para já, basta.
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