Entre o negro da terra e o riso contido

Terça-feira, 5 de Outubro de 1976

Mais um dia de rotina. Mas a rotina, quando bem espremida, revela surpresas.

Fui para o CRM e mergulhei naquele pequeno mundo que começa a parecer-me maior do que muitos imaginam. Hoje percebi que sou mais versátil do que pensava. Passei pelo arquivo, organizei fichas, atendi pessoas com as suas histórias e inquietações, dei apoio ao meu grupo e ainda ajudei na montagem de um teatro de fantoches para a festa da juventude comunista na escola do Passal. Entre papéis, vozes, madeira e panos coloridos, dei por mim a circular de tarefa em tarefa com naturalidade.

Não sou apenas o rapaz indeciso entre liceu ou trabalho. Ali, naquele espaço, sou útil. E isso pesa.

A meio da tarde, quando o dia parecia já completo, o Manel apareceu com a proposta simples que tantas vezes salva o espírito: “vamos dar uma volta”. Fomos a pé pelas minas. Sem plano. Sem pressa.

Talvez tenha sido ali que descontraí verdadeiramente.

Caminhámos por trilhos outrora percorridos por mineiros de rosto fechado, homens moldados pela dureza da terra. O negro ainda pinta o chão e as pedras, como memória que se recusa a desaparecer. Agora, porém, reina o silêncio. Um silêncio interrompido apenas pelos nossos passos e pelo som leve da conversa.

E que conversa.

Falámos das nossas desventuras do coração — como se houvesse outro tema possível. As duas irmãs continuam a ser o eixo invisível das nossas caminhadas. Rimo-nos de nós próprios, das estratégias falhadas, das esperanças exageradas, das leituras erradas de cada olhar. Há uma espécie de heroísmo ingénuo na forma como analisamos cada gesto delas, como se estivéssemos a decifrar um enigma nacional.

Entre confidências e pequenas ironias, fui ficando mais leve. A companhia do Manel tem esse efeito: aproxima, sustenta, equilibra. Percebi que a amizade se fortalece precisamente nestes momentos de partilha crua, quando nenhum dos dois precisa de fingir grandeza.

Caminhar naquela paisagem negra, onde outrora o esforço embrutecia homens, e falar de amores adolescentes teve algo de quase simbólico. Nós, tão jovens, a discutir fragilidades num cenário que lembra resistência e dureza. Talvez este contraste nos tenha unido ainda mais.

Voltámos diferentes do que partimos. Não porque algo exterior tivesse mudado, mas porque a partilha alinhou os nossos passos.

No meio da incerteza amorosa, no meio da rotina que por vezes pesa, há esta certeza tranquila: a amizade, quando é verdadeira, não falha. E hoje isso foi bom. Muito bom mesmo.


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