Pedalar contra o vazio
Segunda-feira, 4 de Outubro de 1976
A manhã decorreu como tantas outras. Levantar, cumprir, avançar pelas horas com a naturalidade de quem já conhece cada gesto. Até ao almoço nada que merecesse registo — apenas a rotina a cumprir o seu papel de pano de fundo.
Mas a tarde trouxe movimento.
O Manel apareceu com aquele brilho inquieto no olhar, como quem já tem destino traçado antes mesmo de perguntar. E fomos. De bicicleta. Para onde? Para o “Monte”, claro. Há peregrinações que não precisam de ser explicadas. O objectivo era simples e, ao mesmo tempo, enorme: ver aquelas que aquecem os nossos corações.
Pelo caminho falámos como dois estrategas de guerra… mas daquelas guerras doces da adolescência. E se as encontrássemos? E se surgissem juntas? Combinámos até afastarmo-nos um do outro para que cada qual pudesse ficar a sós com a sua escolhida. Tudo muito bem delineado. Muito ensaio. Muita fantasia. A imaginação galopa mais depressa do que qualquer bicicleta.
A sorte, porém, escolhe sempre um lado.
O Manel viu a Ana Maria. À distância, é certo, mas viu-a. E isso bastou para o animar como se tivesse conquistado um território inteiro. Vi-o ganhar cor, energia, esperança. Às vezes um simples vislumbre é combustível suficiente.
Quanto a mim… da Dila nem a sombra. Nem um vulto, nem um gesto, nem um acaso. O Monte estava lá. O ar estava lá. Ela não.
Voltámos os dois a pedalar. Um carregado de entusiasmo, o outro a disfarçar um peso que não queria confessar. A aragem tornara-se mais fresca e, curiosamente, fez-me bem. Bateu-me no rosto como quem diz: “acorda”. Foi limpando a indisposição, a pequena frustração que teimava em instalar-se.
No fim, pensei: valeu a pena. Estive no mesmo lugar “dela”. Pisei o mesmo chão. Respirei o mesmo ar. Há consolações que parecem mínimas, quase ridículas vistas de fora, mas que para quem sente são suficientes para manter acesa uma chama.
Talvez seja isto a adolescência — alimentar-se de ausências como se fossem presenças. E continuar a pedalar, mesmo quando o coração vai ligeiramente desencontrado do mundo.
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