A mesma névoa, outro silêncio
Domingo, 3 de Outubro de 1976
O dia amanheceu como se nada tivesse ficado pendente. O céu indiferente, as ruas no seu ritmo habitual, a casa mergulhada naquele silêncio espesso de domingo. Mas dentro de mim a névoa não se dissipou. Mudou apenas de posição.
É curioso como um novo dia não traz necessariamente novidade. As preocupações acordaram comigo, sentaram-se à mesa do pequeno-almoço e acompanharam-me em cada divisão da casa. O liceu ou o trabalho. A promessa de uma rotina que pode ser redenção ou repetição do erro. A sensação de estar à porta de qualquer coisa que não sei se quero abrir.
Domingo sempre foi um dia suspenso. Nem pertence ao que passou, nem ainda ao que virá. Talvez por isso pese mais. Há tempo para pensar — e quando há tempo, o pensamento não perdoa.
Voltei, inevitavelmente, à Dila. A possibilidade de a rever instala-se como uma pergunta que não pede resposta imediata, mas que não aceita ser ignorada. Imagino o encontro como quem ensaia uma cena antes de subir ao palco. E se ela me olhar com indiferença? E se sorrir? E se for eu a desviar o olhar primeiro?
Há uma parte de mim que quer acreditar que o tempo amadureceu alguma coisa entre nós. Outra parte, mais prudente, sussurra que o tempo não amadurece nada quando não é cultivado. E nós deixámos tanto por dizer.
Talvez o que mais me inquieta não seja o que ela sentirá, mas o que eu próprio sentirei. Tenho receio de descobrir que afinal continuo no mesmo lugar emocional, preso a uma imagem antiga. Ou pior: receio perceber que já não é a mesma imagem, mas que eu insisto em vê-la como era.
Passei o dia sem grandes acontecimentos. Um domingo comum. Mas por dentro houve movimento. Uma espécie de reorganização silenciosa. Começo a perceber que esta incerteza sobre o liceu ou o trabalho não é apenas prática — é identitária. Quem sou eu neste momento? O rapaz que ainda espera nos intervalos por um olhar? Ou alguém que começa a aceitar que crescer implica perder certas ilusões?
Não tenho resposta. E, estranhamente, começo a aceitar essa ausência como parte do caminho.
A névoa continua. Mas já não me paralisa da mesma forma. Há qualquer coisa em mim que observa tudo isto com uma distância nova. Como se o António de hoje começasse a olhar o António de ontem com mais lucidez.
Talvez crescer seja isto: continuar a caminhar mesmo quando não se vê o fim da estrada. Sem garantias. Sem presságios claros. Apenas com a decisão de não recuar.
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