Entre a Névoa e o Presságio
Sábado, 2 de Outubro de 1976
Hoje poderia escrever duas linhas e encerrar o dia como quem fecha uma janela: estive no CRM, fiz o trabalho do costume, voltei para casa. Tudo igual. Tudo previsível.
Mas não foi só isso.
Enquanto organizava papéis, enquanto fingia que o tempo estava apenas a passar por mim, havia um ruído de fundo na minha cabeça. Um murmúrio persistente. As aulas estão para começar e eu continuo sem saber que caminho vou trilhar. Liceu? Trabalho? Adulto à força? Adolescente adiado? Está tudo suspenso, como céu antes de trovoada.
A rotina aproxima-se. E a rotina é sempre uma promessa dupla: pode trazer alegria… ou pode repetir antigas tristezas. Recordo outros recomeços. Houve um tempo em que as aulas eram sinónimo de expectativa, de encontros, de uma leveza quase infantil. Depois veio a queda. Como se a mesma porta que se abre com entusiasmo se fechasse com frieza.
Tenho quase a certeza de que aqueles dias não voltarão. E talvez seja isso que mais pesa: a noção de que certas primaveras só florescem uma vez.
E a Dila? Irei vê-la? Pergunto-me isso como quem testa a própria coragem. Como reagirá ela à minha presença? E eu — saberei ficar sereno? Ou trairei tudo no primeiro olhar?
Há uma parte de mim que gostaria de espreitar o futuro, só um pouco. Não para o controlar — isso seria vaidade — mas para me preparar. Para não ser apanhado desprevenido pelos embates que imagino. Ou talvez não haja embates nenhuns. Talvez a vida seja mais simples do que a minha imaginação insiste em complicar.
Não sei.
E este “não sei” é honesto. É cru. Não é bonito, mas é verdadeiro.
O curioso é que, no meio desta incerteza, continuo a cumprir. Vou ao CRM. Trabalho. Penso. Escrevo. Isto já diz muito sobre quem estou a tornar-me. Mesmo na névoa, caminho.
Uma coisa é certa — o futuro nunca se deixa espreitar. Mas gosta de ser surpreendido por quem não desiste de aparecer.
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