Quando a luz regressa ao papel

Sexta-feira, 1 de Outubro de 1976

A manhã correu como tantas outras, com o passo igual dos dias úteis. CRM, arquivo, fichas alinhadas como soldados obedientes, e por fim o DIFI, esse território onde fingimos que o mistério nos pertence. Nada de extraordinário. O mundo parecia cumprir apenas a sua obrigação.

Mas a tarde abriu-se como uma janela depois de meses fechada.

A minha mãe chamou-me e disse, quase como quem anuncia um achado arqueológico: tinha encontrado as fotografias. A "dela". A minha. As nossas. Num instante, o dia cinzento deixou de existir. Não foi o Sol que nasceu lá fora — foi dentro de mim. Há pequenas vitórias que não mudam o mundo, mas salvam um coração.

Peguei na fotografia com um cuidado quase religioso. Revirei-a, inspeccionei-a, temendo alguma dobra, algum rasgão que denunciasse o tempo ou o descuido. Nada. Estava intacta. Como se tivesse esperado por mim.

E então surgiu o problema sério: onde guardar aquilo que é mais frágil do que o vidro? A vontade era colá-la ao peito, escondê-la sob a camisa como se fosse um amuleto. Mas não se pode viver com o coração colado à pele. Procurei, encontrei um pequeno envelope próprio para fotografias e ali a guardei, com a solenidade de quem arquiva um tesouro. Agora estava a salvo. Pelo menos do mundo. De mim, não sei.

O Manel apareceu pouco depois. Olhou para mim e percebeu logo que algo tinha mudado. Há amizades que dispensam explicações, mas expliquei na mesma. Celebrámos à nossa maneira: duas bicicletas e a estrada.

E fomos, claro, para o Alto do Depósito. Como se aquele lugar fosse um altar onde se acendem memórias. Ficámos lá largo tempo, a falar pouco e a recordar muito. Há sítios que guardam ecos. E nós escutámo-los.

Ao fim da tarde parti para o Porto para o treino de karaté. O dojo recebeu-me com o seu silêncio disciplinado. O corpo respondeu como se também quisesse festejar. Cada movimento parecia fechar um círculo invisível iniciado horas antes. Não sei explicar — apenas senti que o dia tinha encontrado a sua forma completa.

Há dias assim. Começam vulgares e acabam a ensinar-nos que basta uma fotografia reencontrada para devolver sentido às coisas.

E, no fundo, é isto: às vezes o que se perde volta. Não por milagre. Mas porque ainda nos pertence.


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