Esgrima de afectos

Quinta-feira, 2 de Dezembro de 1976

Hoje acordei com o fustigar da chuva contra o vidro da janela do meu quarto. Estava frio; o corpo, pesado, implorava por mais uns minutos sob o calor dos cobertores, mas o meu coração, subitamente ligeiro, atirou-me para fora da cama. Sabia que, lá fora, me esperava outro tipo de calor, um que me aqueceria a alma de forma que nenhum agasalho consegue imitar.

Apressei-me rua abaixo, com o guarda-chuva aberto e a capa de chuva devidamente puxada até ao pescoço. Corri para a paragem e lá estava a Dila. Olhava a minha chegada com uma indisfarçável apreensão. Uma senhora abrigava-a da chuva e, pelo seu olhar suplicante, percebi logo que implorava para que eu não me aproximasse. Compreendi o sinal e contive-me. Ela sorriu disfarçadamente e, com a chegada oportuna do trólei, entrou. Segui-a à distância, zeloso por não denunciar a minha presença. Ambas subiram para o piso superior e sentaram-se juntas; deixei-me ficar uns bancos mais atrás, contentando-me com a felicidade de a ter por perto, ainda que apenas o vulto da sua nuca me fosse permitido contemplar.

Na paragem do Alto da Serra, a senhora saiu. Aproveitei o momento para me sentar junto dela, que me recebeu com um sorriso radiante. 

Olá, António. Ainda bem que percebeste que devias ficar afastado. Estava aflita — confessou. 

Percebi pelo teu olhar. Quem era aquela senhora? — perguntei. 

É uma amiga da minha mãe. Como viu que eu não trazia guarda-chuva, ofereceu-se para me acompanhar. Não podia recusar. 

Ainda bem que já seguiu o seu caminho. Assim, já podemos fazer a viagem juntos — respondi, soltando um suspiro de alívio.

A conversa fluiu com a leveza da chuva que escorria pelas vidraças. 

Como é que foi o teu dia hontem, António? 

Horroroso. Detestei. Preferia ter tido aulas — retorqui. 

Preferias ter tido aulas? A sério? Porquê? 

Ora, porque seria? — fiz uma pausa para o efeito dramático e sorri de forma marota — … Por causa das aulas, com certeza. 

Logo tu, que gostas tanto do liceu estou mesmo a ver! — disse ela, num tom que oscilava entre o amuado e o meigo. 

Então porque não foste para lá hontem? Assim matavas as saudades. 

Apanhaste-me! — exclamei. — As saudades que eu tinha não eram do edifício do Liceu, mas sim da companhia que tenho sempre que para lá me dirijo.

Senti o meu coração latejar nas têmporas. Ela corou brevemente, talvez por eu ter sido demasiado directo, mas não recuou: 

Eu também teria preferido ir para as aulas — concluiu, com mais um daqueles sorrisos conspiradores que me desarmam.

Era mais uma declaração subentendida; entendi-a perfeitamente e ela tocou-me de tal forma que me deixou mudo, sem palavras que pudessem ombrear com a inteligência do que ela acabara de dizer. 

Saímos no Bonfim debaixo de um temporal. Abriguei-a sob o meu guarda-chuva; caminhámos o mais juntos que podíamos e, ao mesmo tempo, mantendo aquela distância irreprovável que a época exigia. Deixei-a à porta, com a promessa de a ir buscar após o almoço.

Cumpri o prometido. No regresso a S. Pedro, contei-lhe a miséria que fora o meu feriado solitário. Ela, por sua vez, contou-me que o trabalho doméstico não lhe dera tréguas, pelo que não saíra nem tivera tempo para pensar em nada — disse-o com um sorriso provocador que me derreteu as defesas. Fizemos com que o tempo andasse devagar, mas, quando demos conta, a hora urgia. — Até amanhã, António! — despediu-se, e voou rua acima, ligeira como uma ave. Esperei que desaparecesse de vista antes de recolher a casa.

Lá, o meu amigo Manel já me aguardava. Qual inquisidor, começou a interrogar-me sobre onde estivera e com quem. É o típico Manel: sempre apressado, a correr num mundo que passa depressa demais para ele o observar. Expliquei-lhe tudo. Ele escutava-me hipnotizado, talvez porque aquele era o sonho que ele próprio gostaria de viver com a irmã da Dila. Quem sabe o futuro lhe reserve também a concretização desses anseios.

O dia fecha agora com um temporal furioso do lado de fora, mas eu encontro a bonança aqui dentro. Sinto-me em paz comigo e com o mundo. É bom viver assim.


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