O Precipício das Horas Vazias

Quarta-feira, 1 de Dezembro de 1976

Feriado Nacional. Poderia ser a oportunidade ideal para realizar tudo o que a vontade dita, mas o destino, esse mestre da ironia, nem sempre cumpre os meus objectivos. Diria mesmo que ele se interpõe sistematicamente ao meu querer. Para mim, o feriado significa que a clausura me está destinada; sair de casa apenas para cumprir o horário não me atrai e, por isso, não encontro forma de evitar o inevitável: viver um dia desprovido de propósito.

Depois de me levantar, procurei nas rotinas antigas a solução para um dia que já se sentia perdido antes mesmo de acontecer. Foi mais o corpo do que a mente que me empurrou para a rua, e os meus passos, quase por instinto, encaminharam-me para o CRM, o destino do antigamente. Fui sem vontade, descomprometido com o mundo, levando apenas a promessa de ver o tempo passar sem grande alvoroço.

Uma memória recente, contudo, animou aquele instante. Relembrei a minha última passagem por aquelas mesmas ruas, num trajecto semelhante, mas em que o cenário era outro: nessa altura, eram dois corações próximos que se faziam ouvir, batendo lado a lado. Vieram-me à memória os ecos de passos partilhados e os sorrisos constantes daquela rapariga que me preenche os pensamentos. Parece um passado tão recente e, ao mesmo tempo, tão longínquo, pela impossibilidade de revisitar esses momentos de confidência e absoluta proximidade com a Dila. Como seria bom tê-la comigo novamente a palmilhar o mesmo percurso… Mas a ilusão foi breve, e a porta fria do CRM devolveu-me à realidade.

Preso novamente aos afazeres, procurei dispersar os pensamentos, afastando-os à força do meu coração. Segui adiante com a manhã, que se replicou cinzenta durante a tarde. Não senti alegria, nem qualquer vislumbre de satisfação. Deixei que o tempo seguisse o seu curso e eu fui simplesmente escorregando nas horas, como quem cai de um precipício sem ter onde se agarrar.

Agora, quando a noite afastou o dia, o céu veste-se de uma escuridão profunda que ameaça a tempestade vizinha. Aqui, na minha caverna onde paira a solidão, resta-me o consolo de saber que amanhã um novo dia raiará; faça sol ou caia a chuva, a luz que me ilumina estará algures à minha espera. Resta-me aguardar que a noite se aligeire, pois tenho uma pressa urgente de ver o dia clarear.


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