O Sol que Vence o Nevoeiro
Sexta-feira, 3 de Dezembro de 1976
Hoje o sono prendeu-me no seu abraço aconchegante, impedindo o despertar nesta manhã que avançava rápidamente. Mas esta não espera por ninguém, e avançava sem piedade. Foi a voz da minha mãe — meio sussurro, meio urgência — que me arrancou daquele refúgio quente. Bendita impaciência a dela. Não sabe, nem imagina, o quanto lhe devo por me ter lançado porta fora, ainda meio perdido, mas já com o pensamento a correr à frente do corpo. Estava atrasado e o meu pensamento corria adiante para aquela paragem onde devia estar a Dila, talvez já preocupada por não me ver chegar. O tempo ameaçava chuva, mas não era isso que me iria impedir de voar até ao meu destino, até àquele anjo que me aguardava pacientemente.
Engano meu, ela não estava na paragem. Teria já seguido para o Porto? Não quis acreditar, alimentando a esperança de que ela, também, se tivesse atrasado. Esperei pacientemente e tive sucesso. Vi a sua figura surgir na esquina da rua, logo adiante, vinha ligeira, com o seu cabelo a esvoaçar ao vento, ligeiramente corada pelo esforço apressado. Trazia uma capa de chuva desabotoada que deixava antever umas calças pretas e uma camisola azul-claro, de onde surgiam os colarinhos brancos de uma blusa. Naquele cenário de betão húmido e empedrado escuro, o azul dela parecia um pedaço de céu que se esquecera de ir embora com a tempestade. Com a sua chegada, o Sol pareceu finalmente raiar, e o seu sorriso lindíssimo aplacou definitivamente o dia sombrio.
— Olá, António! Pensei que já não te ia encontrar aqui. Hoje atrasei-me imenso… — começou por dizer. Interrompi-a:
— Pois é, já estava a desesperar. Estou aqui há horas… — parei, pois vi que ela ficava com um ar preocupado, e continuei:
— Estou a brincar contigo. Também me atrasei e tinha acabado de chegar.
— És um dramático, estás sempre a brincar… — disse ela, muito séria, com um leve ar de reprovação.
— Pronto, não me ralhes mais. Prometo… — ia dizer, mas não resisti insistindo:
— Não prometo nada. Gosto de brincar contigo, principalmente porque me perdoas sempre.
Sorriu afavelmente:
— Pois, conheces-me bem e por isso abusas… — calou-se, fazendo um beicinho de amuada que me deixou pendurado.
Não sei classificar nem exprimir o quanto ela me perturba quando mostra assim o seu carinho e generosidade.
— Tu sabes que eu nunca abusaria de ti — respondi, com semblante sério.
— Eu sei — apressou-se a dizer. — Estava a brincar contigo.
— Então agora és tu que brincas comigo?
Rimos os dois com vontade. Como era bom termos este entendimento, só desejo que assim continue para sempre.
A viagem para o Porto foi ternurenta, um diálogo sobre como será o futuro. O trólei balançava nas curvas, fazendo as lanças soltarem faíscas lá no alto, enquanto o balanço do veículo nos aproximava num roçar de ombros quase acidental. Não falámos de nós, mas cada palavra inclinava-se para o que cada um desejava para si quando fosse "adulto".
Tantos sonhos. Tantas ilusões? Não sei. Não sabemos.
Depois das aulas terminarem fizemos a viagem de regresso. Eu, imerso nas suas palavras, em contemplação pelos seus trejeitos enquanto ela falava alegremente dos acontecimentos da manhã com as suas colegas no liceu. Foi uma longa viagem onde cada minuto contou para mim como se o tempo não tivesse já determinado que nos iríamos separar mais adiante. O vento forte que se fazia sentir quando chegamos a S. Pedro despertou-me deste embalar que a companhia da Dila produz em mim.
Seguimos apressados antes do regresso da chuva. Mesmo assim, paramos num recanto abrigados do vento e dos olhares alheios para usufruirmos de mais uns minutos na companhia um do outro.
— Amanhã não virei embora contigo… — começou ela, muito séria, fazendo uma longa pausa que me fez prender a respiração.
— … porque não tenho a última aula. Por isso venho embora mais cedo. — Concluiu com um grande sorriso.
— Queres matar-me do coração? — respondi, de forma sofrida, enquanto ela continuava a sorrir.
Ai, aquele sorriso… Afastou-se e, olhando para trás, disse:
— Até amanhã. Porta-te bem.
Já distante, respondi-lhe num sussurro que o vento levou:
— Adoro a forma como me torturas. É por isso que eu te…
O frio do entardecer entrou-me pela garganta e a frase ficou a meio, suspensa no ar. É melhor não dar voz ao que me vai no coração porque isso ainda me vai doer mais por não o poder dizer abertamente a ela.
A tarde seguiu rotineira no Centro, entre o estudo e as actividades do grupo. O dia não termina sem antes de me dar a satisfação de passar para o diário os momentos de encantamento por que passei hoje. A noite recolhe-me novamente, mas os olhos dela ficaram cá dentro, a vigiar o meu sono. É estranho como o silêncio de um quarto pode ser tão povoado pela voz de alguém que já partiu para outra rua. Amanhã o dia será mais curto para nós, mas o meu coração já aprendeu a esticar os minutos para que nada se perca.
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