O dia que nasceu tarde


Sábado, 4 de Dezembro de 1976

Hoje foi um dia demasiado curto para a minha vontade. Não nas horas — essas arrastaram-se — mas no tempo que foi meu. Esse foi escasso. Se o tempo se medisse pelas batidas do coração, então sim, este dia teria passado num instante.

De manhã levantei-me sem pressa, tomei o pequeno-almoço e fui para a paragem. O dia estava radioso, e eu acompanhava o céu. Faltava apenas ela.

Ainda não tinha chegado. Era cedo. Esperei sem contar o tempo, de olhos presos à curva onde sabia que iria surgir. E então apareceu — apressada, como sempre — com o tempo a correr atrás dela e não o contrário.

Sorriu. Olhou-me como quem pergunta sem palavras se eu estava aborrecido.

Aborrecido eu? Que ideia.

O dia, afinal, só agora começava.

- Acorda António! Parece que estavas em transe. Em que pensavas?

Como dizer-lhe a verdade? Como dizer que a estava a contemplar como quem olha para algo sagrado?

- Estava absorto a adorar… — fiz uma pausa, só para a ver prender a respiração — 
 este dia maravilhoso que acabou de nascer.

Ela franziu ligeiramente o sobrolho, tentando decifrar-me.

- O dia acabou de nascer? O Sol já nasceu há pelo menos meia hora


- Pois
 mas para mim só nasceu agora.

Corou. Foi um rubor rápido, mas verdadeiro.

- Lá estás tu
 — disse, hesitando — também gosto destes momentos — voltou a corar — em que vamos para o liceu.

Fiquei surpreendido. Não pelas palavras, mas por lhe terem escapado.

O trólei chegou e, com ele, um silêncio novo.

Subimos ao primeiro piso. De repente, vi-a afastar-se rapidamente de mim e sentar-se mais à frente, junto de uma senhora. O sorriso desapareceu-lhe. Havia qualquer coisa no seu rosto — não era só pressa, era receio.

Olhou para trás, de forma quase imperceptível. Não queria que eu me aproximasse.

Mantive-me onde estava.

Observei.

Falava com a senhora com cuidado, como quem mede cada palavra. Não voltou a olhar para mim. Não uma única vez.

Chegámos ao Bonfim. Saí. Ela não.

Fiquei com um peso estranho — não era ciúme, nem raiva. Era inquietação.

Durante um furo de matemática saí do liceu. Caminhei sem rumo, tentando perceber o que não fazia sentido.

Foi então que senti uma mão no braço.

Era ela.

Sorria, mas não como de manhã. Havia ali um cansaço escondido.

- Desculpa aquilo de manhã


- O que aconteceu? Quem era aquela senhora?

- Era a minha mãe
 — respondeu rapidamente.

Ficámos em silêncio por um instante, caminhando.

- Então


- Na segunda-feira conto-te tudo. Não penses mais nisso.

O trólei chegou nesse momento. Entrou sem olhar para trás.

Fiquei na paragem, a vê-lo desaparecer.

Depois das aulas voltei para casa com aquelas palavras a ecoar: “Na segunda-feira conto-te tudo.

O fim de semana, de repente, pareceu longo demais.

À tarde fui para o CRM. Precisava de me distrair. Resultou — não totalmente, mas o suficiente para não me perder nos pensamentos. Uma excursão de antigos mineiros ocupou-me até à noite.

Em casa, o silêncio voltou.

E com ele, os pensamentos.

Sinto-me sem controlo sobre isto. Como se estivesse à espera de algo que não posso evitar. Os velhos receios começam a regressar, discretos mas persistentes.

E a pergunta instala-se, teimosa: "será que a vou perder outra vez?"

Há dias que não trazem respostas — apenas abrem portas. Este foi um deles. E agora, o silêncio entre hoje e segunda-feira pesa mais do que qualquer palavra dita.