O peso dos dias vazios


Domingo, 5 de Dezembro de 1976

Há dias que parecem não ter lugar na vida. Passam sem deixar rasto, como se nunca tivessem existido.

Hoje queria que fosse assim.

Se pudesse, desligava-me do dia e avançava diretamente para amanhã. Não havia nada que me prendesse, nada que me chamasse. Queria apenas passar despercebido, existir em silêncio, como quem se apaga um pouco para não sentir.

Mas o mundo não costuma pedir licença.

O Manel apareceu sem aviso, com aquela energia que não se explica. Falava, puxava por mim, insistia. Dei por mim a segui-lo, quase sem vontade própria, arrancado do meu refúgio.

Fomos andando. Ele leve, eu arrastado. Dizia coisas que mal ouvi. Ri-se sozinho, talvez. Eu não estava lá por inteiro.

As ruas levaram-nos até às minas. Ao longe ouviam-se sons de festa — música, vozes, um movimento que contrastava com o que eu sentia. Não queria estar ali. Não queria estar em lado nenhum.

Mas fiquei.

Chegámos ao CRM. Tudo preparado, enfeitado — era a festa de Santa Bárbara. Havia pressa no ar, gente de um lado para o outro, mãos ocupadas, vozes cruzadas.

Sem perceber bem como, deixei-me ficar. Primeiro a ajudar por insistência, depois por inércia. Dei uma mão aqui, outra ali. Arrastaram-se mesas, organizaram-se coisas, trocaram-se palavras rápidas.

Quando dei por mim, a manhã tinha passado.

E só a fome me lembrou que ainda não tinha almoçado.

À tarde, o corpo cobrou tudo.

Afundei-me no sofá da sala, incapaz de reagir. Fechei os olhos, mas não descansei. O pensamento não me largava. Voltava sempre ao mesmo ponto.

Hontem.

A imagem dela, o comportamento estranho, o medo no olhar.

A inquietação crescia sem controlo. Não era ainda certeza, mas era suficiente para me tirar o chão.

Adormeci por instantes. Acordei logo depois, com o corpo pesado e a mente em sobressalto.

A noite não prometia descanso.

Deitado, fiquei a olhar o teto. As sombras do candeeiro da rua desenhavam formas incertas, quase vivas. Fixei-as como se pudessem dizer-me alguma coisa.

Mas não diziam.

E eu também não tinha respostas.

Amanhã está ali, à espera — mas sinto-me longe dele, como se não tivesse coragem de lá chegar.

Há dias que não nos fazem crescer — apenas nos obrigam a parar. E, por vezes, é nesse silêncio inquieto que começamos a perceber o quanto dependemos do que ainda não sabemos.


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