O dia em que o silêncio disse sim
Segunda-feira, 6 de Dezembro de 1976
Depois de uma noite inquieta, acordar foi como regressar à superfície. A manhã estava limpa, o Sol levantava a névoa no vale como se nada tivesse acontecido.
Saí sem trazer comigo os restos da noite. O frio cortou-me o rosto e acordou-me por dentro. Na paragem, ainda era cedo. O campo do Jangana estava coberto pela geada. Mãos nos bolsos, kispo fechado até ao pescoço, fui observando quem chegava.
Ela apareceu encolhida, a proteger-se do frio. Sorriu ao aproximar-se.
- Olá António. Hoje está tanto frio que parece que estou a fumar.
Expirou devagar, deixando escapar uma nuvem branca que se dissipou no ar.
Entrámos no trólei. Subimos ao piso superior e sentámo-nos juntos. Os vidros embaciados fechavam o mundo lá fora.
- Então conta-me o que se passou no sábado. — pedi.
- Foi cá um susto quando vi a minha mãe sentada que não sabia o que havia de fazer.
- Ela viu-nos na paragem?
- Era isso que eu temia quando me sentei ao pé dela. Ainda bem que percebeste e não vieste para a nossa beira.
- Não sabia que era a tua mãe.
- Ia ser muito mau se ela soubesse que estávamos… — calou-se.
- Que estávamos juntos? — era isso que ias dizer?
Acenou que sim.
- Queres dizer juntos de fazermos companhia um ao outro ou…
- Sim.
Fiquei suspenso naquela resposta.
- Sim? Quer dizer…
- Exactamente!
E não disse mais nada.
Mas naquele silêncio havia mais do que palavras.
Ainda faltava tempo para as aulas e seguimos caminho devagar. O frio fazia-nos andar mais próximos. Falámos do domingo. Ela ficou em casa com os irmãos. Eu contei-lhe o meu — mais vazio do que queria admitir.
Talvez por causa daquele “sim”, ou talvez por causa da forma como ela me olhava, deixei escapar mais do que o costume. Falei da solidão, do desconforto, da vontade de a ver.
Ela ouvia. Não interrompia. Havia uma atenção calma nela, como se estivesse a guardar cada palavra.
Disse-me, com cuidado, que nem sempre podia escolher. Que havia limites que não eram dela.
Quando demos por isso, já era tarde para a primeira aula.
Não discutimos. Não hesitámos.
Seguimos em frente.
O jardim das águas estava vazio. Entrámos como quem não quer ser visto. Caminhámos sem destino pelas veredas e acabámos sentados num banco aquecido pelo sol.
Ali, o tempo perdeu importância.
Não fizemos nada de especial. Ficámos. E isso bastou.
Mais tarde, já a caminho do liceu, ela avisou-me: - Não esperes por mim no fim das aulas.
Aceitei. Não havia alternativa.
A tarde ocupou-me. Estudei primeiro, depois entreguei-me ao grupo no Centro. Cumpri o que havia a cumprir.
Mas o dia já não me pertencia.
Ficou naquele banco, naquele “sim” dito sem explicação.
Há dias que não mudam o mundo, mas mudam a forma como o vemos. E às vezes basta uma palavra — ou a ausência dela — para abrir um caminho do qual já não sabemos voltar atrás.
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