À chuva, sem pressa de partir
Terça-feira, 7 de Dezembro de 1976
De manhã levantei-me como nos outros dias, com o corpo a cumprir o hábito antes da vontade. Tomei o pequeno-almoço e fui para a paragem. Esperei pela Dila e seguimos juntos para o Porto, a conversar como quem já conhece os silêncios do outro. Acompanhei-a ao liceu e voltei para o meu, sem que o dia prometesse mais do que o costume.
Durante a manhã, aproveitei uma dispensa para ir tirar umas fotocópias. As aulas passaram sem sobressaltos e, quando terminaram, fui almoçar à cantina. Depois disso, voltei ao sítio de sempre para esperar por ela.
Foi já em S. Pedro que o dia se desviou do que parecia escrito. Começou a chover de repente, uma chuva fina que depressa se tornou persistente. Abri o guarda-chuva e ficámos os dois debaixo dele, sem ser preciso combinar nada. Lado a lado, demasiado próximos para fingir indiferença.
— Hoje apanhou-nos bem — disse ela, olhando para a rua já molhada.
— Apanhou e ainda bem.
— Ainda bem? Porquê? — perguntou, virando-se para mim.
— Sobra-nos tempo para estarmos um pouco mais juntos.
As pessoas passavam mais depressa, mas nós não.
— Ainda bem que trouxeste guarda-chuva — disse, num tom simples.
— Às vezes dá jeito.
Inclinei-o um pouco mais para o lado dela. Era o suficiente. Mesmo assim, ela chegou-se um pouco mais e endireitou-o, como se procurasse um equilíbrio só nosso.
Falámos de coisas pequenas — a água a pesar nas calças, os sapatos dela já encharcados — mas ficámos ali por outra razão, sem a dizer.
Sabíamos que não podíamos ir muito mais longe. A rua dela ficava mais acima, mas não era lugar para ficarmos.
— Isto não pára tão cedo — disse ela, passado um bocado.
Olhei para a chuva, depois para o caminho.
— Espera aqui um pouco.
— Onde vais?
— Já venho.
Fui a casa e trouxe outro guarda-chuva. Quando voltei, a chuva continuava igual.
— Toma.
Ela hesitou um instante, como se aquele gesto complicasse mais do que resolvesse, mas acabou por pegá-lo.
— Obrigada.
Ficámos ainda um pouco, agora com dois guarda-chuvas abertos. O espaço aumentou, mas qualquer coisa se perdeu ali, sem fazer barulho.
Depois despedimo-nos e cada um seguiu o seu caminho.
Mudei de calças e fui para o centro. Até às seis e meia escrevi à máquina, ajudei um senhor e depois vim embora. O dia voltou ao ritmo de sempre, mas já não era bem o mesmo.
Cheguei a casa, lanchei e fui para a Academia. O treino decorreu sem nada de especial. Depois jantei e ainda vi um pouco de televisão, já com o corpo cansado e a cabeça noutro lugar.
Mas, no meio de um dia igual a tantos outros, ficou aquela hora à chuva — estranhamente longa, estranhamente próxima — como se, por um instante, a vida tivesse abrandado só para ver o que fazíamos com o tempo que nos dava.
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