O espaço que ficou

Quarta-feira, 8 de Dezembro de 1976

Hoje ainda trago comigo a sensação de hontem, debaixo do guarda-chuva com ela. Partilhámos aquele espaço pequeno sem precisarmos de o reclamar. A chuva caía com força e obrigava-nos a chegar mais perto, por vezes os braços tocavam-se, um contacto leve, quase sem intenção. Ficou-me isso, mais do que a própria chuva.

Feriado nacional. Cá fora, o dia parado. Dentro de mim, não. Volto ao momento vezes seguidas, como se pudesse demorar-me nele mais do que o tempo deixou.

Passei pelo CRM. Os corredores estavam como sempre, mas eu não. Uma máquina de escrever batia com regularidade, alguém ria ao fundo, dois colegas discutiam um título para o jornal. Encostei-me por instantes a uma mesa, a ouvir, sem entrar verdadeiramente. O trabalho foi andando, mais por hábito do que por vontade.

Em casa, depois do jantar em família, ficamos em frente da televisão. Estava ligada, mas ninguém lhe prestava grande atenção. A conversa ia mudando de tom, leve num momento, mais séria no outro, e havia um conforto nisso, como se bastasse estarmos ali.

No meu quarto, fecho o dia devagar. Sento-me na cama, revejo os momentos, detenho-me onde quase não dei importância. Há coisas que só crescem depois de passarem. Talvez o que importa não seja o que aconteceu, mas aquilo que ficou a acompanhar-me sem pedir licença.


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