Entre a brincadeira e o possível

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Quinta-feira, 9 de Dezembro de 1976

Depois da apatia de hontem, acordei com uma energia diferente, como se o dia me pedisse pressa.

Desci a rua quase a correr. Na paragem do trólei, o tempo parecia encolher. Ela apareceu, mais uma vez apressada, a respiração curta, mas trouxe o sorriso com ela.

De novo atrasada? — perguntei, a sorrir.

Desculpa a demora… — começou, mas interrompi-a com um ar sério.

Na próxima vez vou buscar-te a casa, nem que tenha de bater à porta

Estás maluco? — disse, assustada por um instante. Depois percebeu o meu sorriso e continuou:
Pois
 continuas a brincar. Mas assustaste-me. Mas não eras capaz de fazer isso.

Aí é que te enganas. Era capaz de te bater à porta e tirar-te da cama se fosse preciso.

Ficou séria. Olhou-me por um momento, como se medisse a distância entre a brincadeira e o possível.

O silêncio caiu entre nós, curto, mas cheio. Entrei nele sem esforço.

No trólei, seguimos lado a lado. Falámos pouco. O resto fez-se nos olhares e no movimento do nosso transporte, que nos aproximava devagar. Já não havia aquele recuo imediato, o contacto ficava, natural, sem pressa de se desfazer.

A manhã passou entre aulas e uma ida à biblioteca. Ela esperou por mim. Quando saí, estava no mesmo sítio, como se o tempo tivesse ficado ali com ela.

Voltámos juntos. Deixei-a perto de casa e segui caminho.

A tarde passou sem deixar marca. Há dias assim, que não pedem memória.

Agora, ao fechar o dia, volto àquele momento na paragem. À forma como ela ficou séria por instantes. Há brincadeiras que dizem mais do que parecem, talvez porque, no fundo, nenhum de nós tenha a certeza de até onde iria o outro.


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