Dias que se repetem sem pesar
Sexta-feira, 10 de Dezembro de 1976
Os dias começam a ligar-se uns aos outros, como se fossem continuação do mesmo. E isso não me pesa. Há um conforto em saber que ela estará na paragem, que chegará com aquele sorriso que me encontra antes das palavras. A viagem, a proximidade, os pequenos toques que o movimento do trólei vai permitindo, tudo termina sempre no mesmo “até logo”, dito sem pressa.
Hoje foi assim.
Depois das aulas, ficámos juntos. A Dila precisava de fazer compras no Porto. As montras já tinham o Natal aceso, luzes, cores, gente a parar e a olhar. Ela avançava atenta, demorava-se aqui e ali, como se procurasse algo que ainda não sabia bem o que era. Eu seguia ao lado, sem pressa, a vê-la mais a ela do que às montras.
Percorremos ruas sem destino marcado. Havia um movimento diferente nas pessoas, uma espécie de leveza que não se explica.
No regresso a S. Pedro, falámos pouco. Íamos lado a lado, em silêncio, mas não era um vazio. Havia uma presença tranquila, como se bastasse.
Despedimo-nos com um “até amanhã” simples, sem peso nem promessa. Ficou no ar, suficiente.
No CRM, o resto do dia fez-se de tarefas. Estudei, trabalhei, cumpri o que havia a cumprir.
A noite caiu devagar, a apagar os sons da vila. Agora, ao escrever, volto a estes momentos sem esforço. Há dias que não precisam de ser diferentes para ficarem, basta repetirem aquilo que começa a fazer falta quando não está.
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