Mais perto do que devia
Sábado, 11 de Dezembro de 1976
Hoje fiz o que já me tinha passado pela cabeça mais do que uma vez. Fui esperá-la perto de casa.
Quando me viu, abrandou por um instante e depois apressou o passo na minha direcção.
— O que é que te deu para vires quase buscar-me à porta de casa?
— Não te preocupes, tive cuidado.
— Tiveste cuidado? E se te vissem?
— Estive atento. Não havia ninguém.
— Porque é que o fizeste?
— Porque queria estar mais tempo contigo.
Ficou a olhar-me, séria, como se ainda estivesse a decidir se me ralhava ou não.
— Não ralhes mais, mãezinha. Prometo que me porto bem.
Tentou manter-se firme, mas o sorriso acabou por aparecer. E com ele, a tensão desfez-se.
Seguimos caminho. O percurso pareceu mais longo, como se o tempo tivesse abrandado só para nós.
Acompanhei-a até ao trólei. Fiquei a vê-la subir e desaparecer lá dentro. Hoje não tinha aulas. Voltei para trás sozinho.
No Centro, reuni com o grupo. Falámos de ideias, de planos, do que poderia vir a ser. Cruzei-me com alguns elementos do grupo coral da igreja, fiquei a ouvir, mais por curiosidade do que por intenção.
O resto do dia passou sem pressa.
Agora, no quarto, o frio fica do lado de fora. O rádio toca baixo. Volto ao momento em que ela me viu ali, inesperado. Há gestos que aproximam, mesmo quando deviam talvez fazer o contrário.
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