O Silêncio Onde Arde o Nome Dela
Domingo, 12 de Dezembro de 1976
O dia de ontem passou como passam os dias vazios, sem deixar marca, sem ferida, sem memória digna de ser guardada. Escorreu-me pelos dedos sem que eu o conseguisse prender. Faltou-lhe qualquer coisa, talvez aquele instante raro que dá sentido ao resto.
Hoje, porém, o ar trazia outro peso. Havia movimento nas ruas, um murmúrio colectivo, uma espécie de liberdade inquieta. Eram as eleições. Gente rua acima, rua abaixo, passos decididos, vozes baixas mas carregadas de importância. Como se cada um levasse nas mãos um pedaço invisível do futuro.
A manhã foi ocupada pelo CRM. Cumpri, estive presente, fiz o que me competia. Mas não era ali que eu estava inteiro. Faltava-me qualquer coisa, ou melhor, faltava-me alguém. Ela. Sabia que, noutro lugar qualquer, também ela estaria entregue às suas tarefas, aos seus pensamentos, talvez distante, talvez alheia a este vazio que me acompanhava.
A tarde trouxe o Manel, e com ele um alívio simples, quase automático. A conversa, as pequenas distrações, o conforto de não estar sozinho no sentido mais óbvio da palavra. Mas há solidões que não se partilham, que não se explicam, que nem a melhor companhia consegue dissolver. E essa ficou.
Deixei o tempo correr devagar, sem lhe opor resistência. Li algumas páginas, ouvi a rádio que se arrastava em melodias mansas, como se também ela respeitasse o ritmo lento do dia. Tudo parecia suspenso, como se o mundo estivesse à espera de qualquer coisa que não chegava.
A noite entrou sem pedir licença. Instalou-se com o silêncio habitual da vila, aquele silêncio que não é vazio, mas cheio de pensamentos por dizer.
Abri o diário.
E lá estava ela.
A fotografia escondida entre duas páginas, como um segredo mal guardado. Sorri, sem dar por isso. Há presenças que não precisam de corpo para existir. Acariciei o papel com cuidado, quase como se pudesse magoá-la com um gesto brusco. E, naquele toque, veio-me à memória o frio da sua mão na minha. Esse contraste, o frio dela, o incêndio em mim, continua a confundir-me. Não sei explicá-lo, mas sei reconhecê-lo.
Fiquei ali um instante, preso entre o que foi e o que nunca chegou a ser.
O amanhã não prometeu nada. Nem sinais, nem encontros, nem respostas. Mas, ainda assim, sinto que não me faltará tempo. O tempo há de ensinar-me, devagar, o que é este fogo que não se vê mas que insiste em arder. Talvez não seja para apagar. Talvez seja apenas para aprender a viver com ele, sem me consumir por completo.
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