O dia que escorre sem deixar marca

Segunda-feira, 13 de Dezembro de 1976

As férias trocam-me o compasso. Os dias deixam de obedecer e passam a fluir como lhes apetece, com uma cor mais solta, quase indecisa. Fico dividido entre a preguiça que me prende ao chão e essa vontade teimosa de me colar ao tempo dela, como se o resto fosse apenas cenário.

A manhã nasceu sem plano. Levantei-me tarde no pensamento, mesmo estando de pé. Deixei que o tempo me puxasse pelos ombros, devagar, até à rua. Saí sem destino, como quem espera que o caminho decida por si. Andei. Dei voltas. Evitei certos lugares, não por medo, mas por disciplina, há fronteiras que o corpo conhece antes da cabeça aceitar.

Acabei no CRM.

Os corredores estavam meio vazios, com aquele eco que faz parecer tudo maior e mais distante. Fiz o que havia a fazer, quase por instinto. Falei com os outros, alinhámos ideias para uma exposição sobre fenómenos insólitos. Havia entusiasmo nas vozes, mas não em mim. Eu estava noutro sítio, entre o Alto de Depósito e o Monte, a percorrer trilhos que não constam de mapa nenhum.

O tempo passou inevitávelmente. Escorreu como água num vidro frio. Quando dei por isso, já era noite. Chegou mansa, como um lago imóvel sob um céu limpo. Não houve ruptura, nem mudança brusca, apenas um prolongar do mesmo silêncio que me acompanhara o dia inteiro.

Agora, no quarto, deixo que tudo se dissolva. O peso do dia vai-se desfazendo aos poucos, como se nunca tivesse sido inteiro. Fico com os pensamentos que não vivi e com os sonhos que ainda não tive, esses, sim, parecem mais reais do que o resto.

Talvez este tenha sido um desses dias em que nada acontece por fora porque tudo se prepara por dentro, sem dar aviso.


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