Entre a espera e o silêncio que pesa

Terça-feira, 14 de Dezembro de 1976

De manhã levantei-me já atrasado, como se o tempo tivesse decidido avançar sem mim. Vesti-me à pressa e saí de casa quase a correr, com o coração ainda meio adormecido e o corpo a tentar alcançar o dia. Quando cheguei à paragem, ela já lá estava.

A Dila esperava-me.

Havia qualquer coisa de tranquilo na forma como se mantinha ali, como se a minha pressa não a afectasse. Aproximámo-nos sem palavras inúteis, como quem já sabe o lugar que ocupa no outro. Seguimos juntos até ao Porto. Acompanhei-a até ao liceu, naquele percurso que já começa a ser nosso, mesmo que ninguém o diga em voz alta. Depois deixei-a à porta e voltei para as minhas aulas, com a sensação de que o dia tinha ficado dividido em dois, o antes e o depois de a deixar.

Saí mais cedo. Não houve razão especial, apenas a oportunidade de regressar mais depressa ao espaço onde ela existe.

Em casa, o almoço soube a pouco. Era apenas um intervalo entre momentos mais importantes. Mais tarde, fui com a irmã dela e a minha até ao centro. Mostrei-lhes ruas, lojas, atalhos, um mapa que já conheço de cor, mas que hoje me pareceu estranho, como se faltasse ali a peça principal. Elas acabaram por se ir embora, e eu fiquei.

Fui para o gabinete do grupo. O tempo ali passa de maneira diferente, mede-se em gestos repetidos, em materiais que se moldam, em ideias que tentam ganhar forma. Comecei um módulo, enquanto o Jorge, com o seu ar de quem vive meio noutro mundo, continuava a minha maquete como se fosse dele. Há pessoas que trabalham ao lado de nós, mas não entram verdadeiramente no nosso dia.

Às duas horas saí para a ir esperar.

Havia uma espécie de certeza em mim, silenciosa, firme, como se bastasse estar ali para que ela aparecesse. Esperei. O tempo foi passando devagar, com aquele peso próprio de quem está à espera de alguém específico. Cada rosto que surgia ao longe trazia uma hipótese breve, logo desfeita.

Às três horas fui-me embora.

Não apareceu.

Voltei ao centro, mas já não era o mesmo centro de há pouco. Tudo parecia ligeiramente deslocado, como se o mundo tivesse perdido um alinhamento discreto. Regressei ao gabinete e continuei o que tinha começado, mais por insistência do que por vontade. O Jorge continuava no seu ritmo, alheado, como se o dia não tivesse falhado em nada.

Às seis horas vim embora.

Em casa, jantei, vi televisão, falei com o meu pai. Tudo normal. Tudo no sítio certo. Mas havia um espaço vazio que não se preenchia com rotinas.

Hoje percebi que há dias em que a ausência pesa mais do que a presença de qualquer outra coisa, e que esperar por alguém é, no fundo, uma forma silenciosa de admitir o quanto essa pessoa já faz parte de nós, mesmo quando não aparece.


« Página anterior / Índice / Página seguinte »