O que fica por dizer
Quarta-feira, 15 de Dezembro de 1976
Levantei-me eram oito menos um quarto, ainda com o sono preso ao corpo. Vesti-me à pressa e saí quase a correr, como se o atraso tivesse sempre o mesmo destino, ela.
Quando cheguei à paragem, lá estava a Dila, quieta no seu lugar, como se o tempo para ela tivesse outro ritmo. Aproximámo-nos com um olhar breve, suficiente para dizer que estávamos ali.
Durante a viagem falámos pouco. Não era silêncio desconfortável, mas também não era leve. Havia qualquer coisa suspensa, como se ambos esperássemos que o outro dissesse aquilo que não sabíamos bem como começar.
Quando chegámos ao Porto, percebemos que nenhum de nós tinha aulas no primeiro tempo. Ficámos ali, com uma hora vazia nas mãos. E, sem combinar, começámos a andar.
O passeio foi lento, quase hesitante. As ruas iam passando por nós, mas eu tinha a sensação de que não era o caminho que importava.
— Estás calado hoje — disse ela, sem me olhar directamente.
— Estou a pensar.
— Em quê?
Olhei em frente antes de responder.
— Em nada de jeito.
Ela sorriu de lado, como quem não acredita.
— Então é porque é importante.
Não respondi. Continuei a caminhar ao lado dela, atento à forma como ajustava o passo ao meu, como se isso fosse já um hábito antigo. Às vezes, a proximidade não está nas palavras, está nestes pequenos acertos invisíveis.
A hora passou depressa demais.
Voltámos às aulas, cada um ao seu lugar, mas o pensamento ficou algures naquele passeio, num ponto indefinido entre o que foi dito e o que ficou por dizer.
Quando as aulas terminaram, almocei na cantina. Era comida, apenas isso. Depois fui esperá-la.
Na viagem de regresso voltámos ao mesmo silêncio. Não pesado, não leve, apenas presente. Como se já não fosse preciso preencher tudo com palavras.
Quando chegámos a S. Pedro, não nos despedimos logo. Ficámos ali, quase uma hora, encostados ao tempo.
— Ontem esperei por ti — disse eu, sem rodeios.
Ela baixou ligeiramente o olhar.
— Eu sei… não pude.
— Podias ter dito.
— Podia… — fez uma pausa curta — mas às vezes as coisas não são tão simples.
Olhei para ela, à espera de mais alguma coisa. Não veio.
— E hoje? — perguntei.
— Hoje estou aqui.
Disse-o de forma tranquila, sem defesa, como se isso bastasse.
E talvez bastasse.
Falámos depois de coisas soltas, sem grande importância. Ou talvez com toda a importância, mas escondida. O tempo foi passando sem pressa, até que chegou o momento em que já não fazia sentido prolongar.
— Até amanhã — disse ela.
— Até amanhã.
Vi-a afastar-se devagar, sem olhar para trás. Fiquei ali mais um pouco, como se o chão ainda guardasse qualquer coisa dela.
Cheguei a casa e almocei outra vez, mais por hábito do que por fome. Depois fui para o centro. Passei a tarde inteira no gabinete sem fazer nada de verdade. Tinha as mãos ocupadas, mas a cabeça longe.
Já era noite quando fui para o escritório. Escrevi à máquina, talvez na tentativa de organizar o que não se organiza. Depois levei a chave ao Jorge. Ele acompanhou-me a casa, falámos de coisas simples. Mostrei-lhe uns livros, um aparelho de ginástica, pequenos gestos para preencher o espaço.
Quando ele se foi embora, a casa voltou ao silêncio habitual.
Jantei, li um pouco, vi televisão. Tudo normal. Tudo no sítio.
Mas hoje ficou-me a sensação de que há dias em que estamos perto de alguém e, ainda assim, há uma distância que não se mede em passos. E que, às vezes, o mais importante não é o que se diz, mas aquilo que se escolhe guardar.
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