O sossego das pequenas certezas
Quinta-feira, 16 de Dezembro de 1976
Hoje levantei-me mais cedo. Não por obrigação, mas por uma espécie de vontade tranquila de não correr atrás do tempo. Vesti-me, lavei-me, e saí de casa com passos certos, como se o dia pudesse começar sem sobressaltos.
Cheguei à paragem antes dela. Esperei.
E esperei com uma calma diferente, sem ansiedade, como quem já conhece o desfecho. Quando a Dila apareceu, trazia no rosto a mesma serenidade de sempre, como se o mundo não tivesse pressa de a mudar.
— Hoje chegaste primeiro — disse ela, com um leve sorriso.
— Hoje não quis chegar a correr.
— Fica-te melhor assim.
Seguimos juntos até ao Porto. Acompanhei-a ao liceu e, antes de nos separarmos, ficámos um instante a mais do que o necessário.
— Até logo — disse ela.
— Até logo.
Não houve mais nada, mas também não faltou.
Fui para as aulas com a sensação de que o dia já tinha começado bem, como quando tudo encaixa sem esforço.
Depois das aulas, almocei na cantina. A rotina repetia-se, mas já não me parecia vazia. Havia sempre aquele ponto mais à frente que justificava o resto.
Fui esperá-la.
Quando apareceu, não houve surpresa. Apenas aquele reconhecimento silencioso de quem já se espera sem precisar de o dizer.
Fomos juntos para a paragem e depois para S. Pedro. A viagem passou entre palavras soltas e pausas que não pediam explicação.
— Andas mais calmo — disse ela, olhando pela janela.
— Talvez esteja a aprender.
— A aprender o quê?
Pensei um pouco antes de responder.
— A não querer tudo ao mesmo tempo.
Ela virou-se para mim, com um olhar mais atento.
— Isso é difícil.
— É… mas às vezes resulta.
Ela não disse nada, mas ficou mais perto. Não foi um movimento evidente, foi apenas menos distância.
Quando chegámos, ficámos ainda algum tempo a conversar. Nada de extraordinário, mas também nada indiferente. Há conversas assim, que não deixam marcas visíveis, mas ficam.
— Vais ao centro hoje? — perguntou ela.
— Talvez… ainda não sei.
— Devias ir. Ficas estranho quando não vais.
Sorri.
— Estranho como?
— Como se te faltasse qualquer coisa.
Olhei para ela.
— E falta?
Ela encolheu ligeiramente os ombros.
— Não sei… diz-me tu.
Não respondi. Talvez porque a resposta não cabia ali, naquele momento.
Despedimo-nos sem pressa, como se o tempo tivesse sido suficiente.
Cheguei a casa e fiquei a tomar conta da minha sobrinha. O tempo ali tinha outro ritmo, mais leve, mais simples. Entre uma atenção e outra, fui fazendo uma maquete, deixando as mãos ocupadas enquanto a cabeça vagueava.
A minha mãe chegou já ao fim da tarde, cansada da feira. Quando dei por isso, já era tarde demais para ir ao centro. E, pela primeira vez, isso não me incomodou.
O dia acabou como começou, sem pressa, sem rupturas.
E hoje percebi que nem todos os dias precisam de ser intensos para serem importantes. Há uma espécie de paz nas rotinas partilhadas, nos gestos repetidos, nas presenças que não falham. E talvez seja aí, nesse sossego quase invisível, que as coisas verdadeiras começam a ganhar forma.
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